Espiritismo ou Escapismo?

COMPROMISSO

Sabemos que o Brasil é a pátria onde o Cristo depositou suas mais sagradas esperanças para a redenção do velho mundo em que vivemos. Um planeta cheio de tantas belezas e riquezas e, ao mesmo tempo, habitado por espíritos, em acentuado grau, tão ousados, imaginativos e devotados à prática do mal quanto esquecidos da moral evangélica. Grande é a responsabilidade do Plano Espiritual e, maior ainda, do centro espírita nestes tempos de extrema carência de evangelização.

O Espiritismo, inesgotável fonte de consolação e esclarecimento, caminha a passos largos rumo ao ápice de sua assimilação e propagação pela humanidade. Diariamente indivíduos e grupos de procedências as mais diversas, conforme prognosticou Allan Kardec, começam a vê-lo como formidável meio de investigação e religação com o Criador. Pensadores, respeitáveis vultos da ciência e toda uma multidão de pessoas simples engrossam a fieira dos neófitos e profitentes da doutrina que se lhes acena como magnífico lampadário da humanidade. O enunciado espírita, pleno de fontes de elevação e impulsos renovadores, traz em si a resposta objetiva aos anseios da alma milenar sequiosa da reconstrução íntima que é a mesma pedra basilar do cristianismo.

Em muitos dentre os seres atribulados pelo constante embate consigo mesmos na faixa do discernimento, nasce o desejo natural de conhecê-la e comunicá-la ao outro no menor prazo possível, já que foram tantos e tantos os séculos gastos na pregação e aceitação tácita de religiões que se distanciaram da verdadeira Caridade.

LIBERDADE E RESPONSABILIDADE

Cada pessoa com sua bagagem própria alicerçada nos esforços e conquistas que empreendeu no curso das vidas, será responsável por seus próprios atos. No bojo desta autoconsciência, Deus inseriu o princípio da fraternidade, sem a qual o adiantamento espiritual não ocorreria. Logo, o trabalho de evolução, mesmo sendo de compromisso individual, estará, em virtude da lei de amor, sempre dependente e carente do coletivo. Não se trata de transferência de responsabilidades e sim de demonstração da lei de solidariedade. Daí a necessidade de que nos debrucemos mais atentamente à reeducação de filhos e tutelados e vejamos o serviço espírita como uma ação prazerosa.Tratando-se de indivíduos religiosos, que têm conhecimento de leis que regem o espírito, esta atenção ganha contorno acentuado. É aqui que entra o papel do educador. Todavia, se este avanço confirma as previsões inequívocas de Allan Kardec, é fato, também, que muitos entusiastas da Doutrina Espírita trouxeram para dentro dela metodologias paradoxais aos ensinamentos dos Espíritos Superiores.

A natureza progressista da Doutrina e outras prerrogativas não menos preciosas estão na crista das justificativas que, por descuido de quem as destorce, vão tentando reduzir, amesquinhar e protelar a Sublime Mensagem. Estribados no ensino da liberdade de consciência como sendo um dos principais parâmetros do Espiritismo, várias instituições, dentre as quais se acham centros espíritas relativamente antigos, realizam hoje o que, por vício de terminologia, se entende por espiritismo novo, introduzindo as diversas posturas adrede observadas. Naturalmente, os responsáveis pelo desvio de conduta argumentam imperativos de adaptação à modernidade, tais como aprimoramento de métodos e adequação a atualidades intrínsecas à instituição.

Estes pilares de metal, profundamente erguidos pela invigilância daqueles que se rotulam espíritas conscientes de suas responsabilidades na obra de implantação da doutrina, já bastariam para sustentar a presente explanação. E isto não nos causaria nenhuma espécie, de vez que a própria Doutrina Espírita afirma que seus maiores adversários se achariam no seio da religião. Todavia, não nos estenderemos aos diversos procedimentos que respondem pela descaracterização de algumas atividades espíritas em nosso movimento, o que carece maior adentramento ao assunto.

Analisaremos apenas certos aspectos ligados à Evangelização da Família, tema que, ao longo de quatro décadas, tem recebido inúmeras apelos e reflexões do Plano Espiritual e de abnegados educadores encarnados.

O LAR, CONSTRUÇÃO DO AMOR INTEGRAL

Os estudos sociais hodiernos deram ao Lar uma classificação bem diferente daquela que se conhecia até pouco tempo. A excelência dos valores morais, transcendendo a questão religiosa, alcançou o reconhecimento de diferentes ramos da Ciência. Convergem para o interior do núcleo familiar todos os vórtices e vetores de todo o serviço social contemporâneo. O Espiritismo, artífice e antecedente desta epistemologia, segue à frente do processo. Hoje não se pode mais conceber a dicotomia entre lar e moradia, uma vez que as duas coisas se relacionam e se completam reciprocamente. Então, o significado de lar torna-se amplo. O lar, na Terra, é, portanto, um imenso laboratório ainda em fase de edificação. Por isto as palavras de Jesus: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” Muitos reeducandos, sobretudo os mais humildes ou insatisfeitos, vêem nos desencontros da via pública, nas bulhentas torcidas organizadas e nas reações violentas do poder paralelo a imagem e perpetuação de seus próprios lares.

Sabemos que um dos objetivos primordiais da Evangelização é a união da família humana. O reencontro dos espíritos no cadinho terrestre visa, em síntese, a construção do amor integral entre os seres. Estes ensaios de integração não se concretizam quando os membros ou laços humanos mantêm-se distanciados por enfraquecimento e ruptura porque a convivência familiar é a viga de sustentação da fraternidade. Decerto, sem esta característica a instituição familiar perderia o sentido de existência, por lhe faltar presença e companheirismo nos relevantes momentos que a vida assinala para cada alma. Sem a família o indivíduo se achará fragilizado e incompleto. Tanto isto é verdade que quando uma criança não registra o afeto de seus pais ou responsáveis, busca-o além deles em formatos, muitas vezes, os mais comprometedores ao ritmo evolutivo. Mas em termos afetivos, por mais estruturado que pareça um lar, se lhe falta pão para o estômago e agasalho para os frios invernos, ele perde a cidadania, a plenitude, e seus componentes vão, naturalmente, procurar uma solução que estará na rua, na escola, no outro e, por que não dizer, no próprio centro espírita. Estudiosos da psique constatam que distúrbios diversos originam-se dentro do próprio lar para, numa fase secundária, tomar rumos indefinidos do ponto de vista comportamental. Em síntese, o ser baldo de exercício/convivência moral malbarata o livre-arbítrio, aquisição que somente espíritos mais adiantados utilizam com rigor. Pode-se, assim, reafirmar que começa em casa e nas relações sociais, sob o exemplo e o amor de quem cuida e com quem se convive, o êxito em todos os empreendimentos da vida, cuja nomenclatura não cabe no arquivo comum. Em contrapartida é no recôndito do lar, pela ausência de coesão de seus componentes e do meio, que também se originariam os mais complexos dilemas do mundo. Quer-se dizer que, conforme preceitua a doutrina da razão, é no lar que o espírito encarna para o quase sempre difícil recomeço, tendo a perfeição como meta obrigatória a ser atingida. .

Mesmo atualmente, com o conceito de lar parecendo bastante restrito ao juízo da sociedade, podemos afirmar que ele se estende para além do teto, haja visto a interrelação dos vários segmentos que o afetam e influenciam direta e indiretamente.


A CRIANÇA ESPIRITUALMENTE VIÁVEL

Não existe um modelo frio, um roteiro acabado e inalterável estabelecido pelo mundo espiritual nem pelas entidades federativas sobre a Evangelização da Família. Cada pessoa, cada grupo, cada centro espírita, através do diálogo, sentir-se-á livre para refletir, propor e agir com vistas à melhor orientação das novas gerações. Por meio do estudo e discussão do Espiritismo, num exercício constante de entrelaçamento, fruto de esforço próprio e orientação da Espiritualidade, o seareiro capacitar-se-á ao atendimento pleno das exigências e urgências espirituais que a família atual está a rogar.

Muitos dirigentes espíritas ainda não conseguem entender que existem dias e horários de ida ao centro inconvenientes ao perfil de uma criança de cinco anos de idade, média dos filhos menores de quem os pais, habitualmente, se fazem acompanhar em sua inconsciente submissão à idéia de que todos têm que ouvir palestra e tomar passe semanalmente em detrimento da Evangelização propriamente dita do tutelado. Quando o animoso centurião de Tarso foi surpreendido pelo Cristo e se achou decidido a ir à casa do caminho em missão de paz, o Mestre não lhe cobrou e nem perguntou sobre margens de tempo e presença na sementeira da Luz; apenas lhe pediu para não mais recalcitrar contra os aguilhões. Impedimentos e represálias ficaram por conta de sectarismos e convenções doutrinárias.

Logo, este é um assunto de gerenciamento interno que deve ser avaliado com bastante atenção. A criança e o jovem estão indo ao centro Espírita? Qual é a proporção da presença efetiva entre pais e filhos? É salutar um lar composto de três, quatro crianças, onde, por mera questão de faixa etária estabelecida pelo centro, apenas um educando tenha livre acesso ao mesmo, ou, o que é ainda mais grave, a criança esteja formalmente impedida de participar da instituição? Temos constatado com apreensão este paradoxo. Questionado sobre o assunto, muitos gestores apresentam duas principais justificativas que passamos a analisar. A primeira delas é que o centro espírita não dispõe de recursos humanos e materiais para absorver este tipo de clientela. A segunda firma-se em bases rígidas e inflexíveis que fortalecem o distanciamento da criança, quando determina que a mesma tem que ter um teto mínimo de idade e frequência à instituição. No rol dos recursos sobressai-se este item que carece avaliação demorada, para, então, ser estabelecido como fruto do crivo ou objeto da educação espírita. Trata-se da criança que é impedida de integrar estes eventos porque o seu “tempo de casa espírita” não corresponde à carência exigida pelas normas do evento. Normas anti-evangélicas que tiveram sua origem e propagação no atavismo religioso. Sob pretexto de chancela doutrinária, sustenta beber na fonte cristalina dos nobres Benfeitores que acertadamente advertem sobre a condição espiritual do indivíduo que toma parte do trabalho mediúnico. Ressalte-se aqui a conhecida e descaridosa explicação dos planos de saúde que encontram desculpas semelhantes para deferir o não atendimento aos casos supostamente confusos e onerosos ao prestador de serviço. Assim como os planos de saúde devem direcionar seu foco de atenção a uma parcela esquecida da comunidade, o centro espírita também há que priorizar sua atenção para a criança e o jovem, independentemente da sua condição.

A exemplo da mulher que era excluída da religião porque dificultaria a divinização daqueles que se afirmavam representantes de Deus na terra, esta prioridade independerá de fator religioso. Então, numa mesma família, por ocasião destes eventos, tem-se verificado que uma criança participa porque apresenta os requisitos exigidos, enquanto a outra, muitas vezes, com diferenças mínimas de idade e presença à casa espírita, é constrangida a ficar de fora. Nestes casos, quando geralmente a instituição segue à risca o que está deliberado por uma comissão composta de alguns dirigentes contumazes, há prejuízos de convívio familiar, e muitos pais preferem, com absoluta razão, levar seus filhos para as vitrines do movimentado shopping ou à pracinha mais próxima da residência, quando não os deixa em casa à companhia de pessoas alheias à educação. Assim, para gáudio de muitos dirigentes preocupados com a divisão de pães e peixes, a criança espiritamente viável seria aquela cujos pais, há décadas e décadas, assídua e pontualmente, alisam os bancos dos centros, pelo que consideram uma simples obrigação religiosa. Aqui se solapa, se castra pela base o princípio da fraternidade. Estão inseridas no contexto todas as famílias que já encontram relativa facilidade de acesso à instituição espírita. Geralmente estes pais pertencem à classe média e seus filhos, do ponto de vista econômico, estão isentos de qualquer dificuldade de presença ao calendário de eventos.

O dirigente deve ter a noção clara do tipo de terreno em que está atuando, para nunca confundir serviço mediúnico com serviço de evangelização da família. Ambas as atividades visam a reforma íntima do ser e, por isso, poderiam ser consideradas um mesmo tipo de trabalho. Mas diferem consideravelmente. A primeira ocorre no recinto reservado do centro espírita, sob a diretriz da Espiritualidade em plantão de atendimento aos casos que exigem ações específicas dos dois hemisférios. A segunda realiza-se de ordinário, fora do centro, e destina-se a congregar os espíritas num ato de fraternidade e unificação. Aqui, a dinâmica é outra, de característica menos particularista. É de bom alvitre lembrar que quando efetivamos estes trabalhos de confraternização, não nos encontramos no interior da colônia Nosso Lar desempenhando o delicado serviço de resgate a espíritos reconhecidamente avessos à mudança de conduta. E, mesmo em se tratando de ação evangelizadora, já que evangelização pressupõe conduzir ao outro as máximas de Jesus, as normas tornam-se ainda mais compro visíveis, e, portanto, dignas de melhoramento.

Advoga-se que a criança que não tem determinado número de permanência no centro espírita está inapta ao evento, e isto vem a configurar preconceito a ser, em tempo, corrigido, se não se quiser admitir a repetição de antigos métodos de iniciação religiosa contrários ao pensamento de Jesus. Dispositivo semelhante esteve em voga durante toda a fase hegemônica e farisaica das religiões ortodoxas. Quando se percebeu a incoerência e gravidade do artifício, que sempre se fez pintado de supostas recomendações de ordem superior, conseguiu-se dar um sentido de humanidade à igreja, mas já era bastante tarde e as consequências não se evitaram. Consta que muitos daqueles prestativos e irrefletidos expoentes da teologia, acham-se reencarnados no ventre da Doutrina Espírita, perseverando, contudo, na mesma e antiga refração. Então, tenta-se introduzir regras obsoletas e rígidas, embora sensatas na aparência. No instante em que o centro espírita, ainda que só internamente, divulga as normas de qualquer acontecimento que envolva a participação da família, a criança e o jovem sentem-se jubilosos sabendo que seus entes queridos poderão estar todos integrados numa experiência salutar de troca de conhecimentos e amplitude de convivência. Tal contentamento, a se inferir pelos bons resultados destes conclaves, extrapola as fronteiras da casa espírita, porque é anseio natural da criança e do jovem estenderem sua alegria ao parente, ao colega, ao vizinho, enfim a todos aqueles que compõem o seu restrito círculo de atenção. Ocorre que, logo no primeiro item do regulamento, está escrito que só é permitida a participação de interessados com freqüência regular de, pelo menos, um ano às aulas de evangelização. Isto se reflete em desestímulo ao comparecimento do adulto ao centro espírita e da criança ao encontro confraternativo.

No que diz respeito a fatores logísticos ou estruturais, este ato espírita, em inúmeras comunidades, estaria vetado aos financeiramente menos favorecidos por causa das despesas que teriam com condução, pagamento de matrículas e outros pequenos encargos. Aqui se evidencia o que poderia considerar-se preferência à criança dotada de recursos correspondentes aos padrões estabelecidos pelo poder aquisitivo, a começar pelas não tão acessíveis taxas às quais o candidato estará sujeito a pagar pela entrada em diversas confraternizações.

Por traz de todas estas regras de exclusão tão expressas, estaria patente alguma preocupação com lucro material. Logo, há uma explícita inversão de objetivos em que parece prevalecer o interesse pela conjuntura sócio-econômica, até porque existe um custo para a realização destes acontecimentos. Na esfera social, portanto, fica de fora a criança que não pertence a uma faixa demarcado por privilégios de poder. Mas, de acordo com os postulados morais que elegemos, todos os traços ortoxos que conservam o separativismo e a segregação religiosa devem ser rechaçados.

Como pretextar incapacidade de compreensão e aplicação de normais mais humanas, se, além dos livros básicos da Doutrina, aí está o exuberante acervo literário complementar oferecendo roteiros abençoados para o trabalho com a criança e o jovem? Falta-nos uma melhor ponderação na mentalidade dos que criamos múltiplas formas de empecilho ao Espiritismo. Poucos se solidarizam com a jovem gestante que necessita ir às pressas à maternidade; seus apelos soam ao ouvido como a voz da mulher adúltera nos longínquos becos de Magdala; se acaso o filho mais velho chegar atrasado à aulinha de Evangelização, não se lhe perguntará onde andará a mamãe querida. Quase não se tem interesse em levar o respeitoso convite aos filhos do infortúnio, para que sintam os influxos renovadores do Evangelho; afirma-se que quem adormece sob o sereno das marquises e viadutos ali está porque, simplesmente, deseja. Ao órfão, cujo pai perdeu a vida em um sinistro, diz-se apenas: Meu filho, você sabe que a morte não existe; papai desencanou assim porque tinha que passar por esta prova! Mas Allan Kardec esclarece que, do ponto de vista da sua importância social, a fraternidade está em primeira linha e que Jesus veio para os necessitados, ensejando primeiro a releitura das nossas planilhas para o atendimento cristão.


BARRADO NO BAILE DA EVANGELIZAÇÃO

Presenciamos no movimento espírita de São Gonçalo-RJ uma mãe integrante do centro espírita que foi, com seu filho, constrangida a se retirar de um encontro fraterno pelo simples fato de seu nome, por equívoco, não constar da lista dos tarefeiros. Como a genitora foi verbalmente proibida de permanecer nas dependências do órgão onde se realizava o evento e não recebeu, naquela ocasião, o atendimento fraterno reservado ao caso, voltou para casa, cabisbaixa, conduzindo pela mão o pequerrucho. Procedimentos como este devem ser vistos com bastante seriedade e responsabilidade (nunca com naturalidade), sob pena de transformar o ato sócio-recreativo em amargo e indigesto cálice. Compreende-se que uma pessoa que vai com assiduidade ao centro espírita deva saber como fazer em tais circunstâncias. Não se pode, entretanto, querer que uma criança, seja ela espírita ou não, entenda porque os critérios de seleção para participar dos encontros (que são muitos e constantes) obedeçam a tão expressas e claras regras de exclusão. Por ocasião destas datas a frequência nas salas de evangelização tendem a aumentar. Este é um fator até muito positivo que deve ser apreciado. Evitar a aproximação deste coeficiente de evangelizandos que, então, ainda por interesse social, procura o centro espírita, é faltar, no mínimo, com o dever de sociabilidade.

Põe-se em juízo o comportamento pregresso da criança e da família no decorrer de longo período. Desta forma, distorcemos o ideal espírita. Esta criança e este jovem não precisam estar, necessariamente, sequer, pensando em doutrina espírita. O educador é que deve pensar nas almas que ali aportam, cada uma com sua bagagem especial. Das crianças e acompanhantes cujo acesso aos eventos é vetado, têm-se examinado os reais motivos pelos quais não conseguiram o percentual mínimo de idas ao recinto evangelizante? É tarefa do educador procurar saber o que se passa no interior dos lares, ajudar a contornar situações difíceis; numa palavra, acolhê-las e jamais se limitar a informar que estão expulsos destas relações fraternas porque não comparecem por este ou aquele motivo. Arregimentar motivações para que a criança e o jovem não espírita possam permanecer junto às demais crianças é desafio urgente que cabe ao centro espírita encarar de frente, sem perda de tempo.

A casa espírita acha-se realmente capaz de abraçar a causa ou ainda não está preparada para atender o evangelizando? Muitos evangelizadores vêem-se confusos no momento de receber e orientar toda uma massa procedente de denominações adversas, quase sempre voltada para o culto da barganha com Deus, prática adotada por diversas religiões. É natural que esta criança chegue à casa espírita trazendo aquisições e condicionamentos estranhos à moral espírita.


AS NORMAS HUMANAS SÃO FALHAS

A Doutrina Espírita não contempla com nenhuma visão unilateral, mesmo que autenticada por dirigentes entendidos em teoria espírita. Sem exceção, todos os líderes espirituosos do convencionalismo religioso sabiam decor os mandamentos divinos, mas muitos estiveram preocupados demais em aplicá-los aos outros e não a si mesmos. Não se tinha, ainda, a consciência clara de que todos os seres e, especialmente os homens, achavam-se conjugados numa mesma escala infinita de interdependência para articularem e se desenvolverem juntos, à semelhança modal em que se aprimoram os valores morais de cada indivíduo. Àquela mentalidade, por injunções de casta ou ignorância era inacessível o princípio relativo da paridade. Legitimadas pelo poder e não pela justiça, o amor ainda não era tido como absoluto. A legislação e seus instrumentos de aplicação eram duros e irredutíveis. Isto foi, ao longo do tempo, transferido para as relações pessoais. E nas relações humanas os ambientes que mais se identificaram com esta forma comportamental foram os setores religiosos, que, inclusive, chegaram a inventar e aprimorar códigos penais no altar da insensibilidade. Como as normas humanas são, também, falhas, quer se trate de religião ou não, a senha que se fez prevalecer para o perdão das ofensas, e alguém se tornar persona grata a uma irmandade imune ao castigo e senhor de benesses transformou-se em pagamento, amoedado ou não. Logo, o passaporte para se gozar da intimidade religiosa eram os bens e favorecimentos pessoais. O hábito estendeu-se até nossos dias: Hoje o lastro econômico-social ainda é exigência “sine qua non” para que o cidadão se reintegre à sua transcendência.

O regime compartilhado de administração, como muitos imaginavam, não logrou solucionar esta problemática. Pelo contrário, ocasionou obstáculos desta natureza. A menos que atentemos para a comunidade e metodologia do Cristo, haverá sempre muito computador, muito papel, muita burocracia inútil que pode ser totalmente descartada sem ranhuras à economia da verdadeira religião. O Evangelho não necessita de defensores ferrenhos, nem da benemerência de conselheiros leais.

O Cristo espera colher sempre figo das figueiras. Sempre dispensou o concurso de dignatários provincianos, ferrenhos de índole e frios em amor, a expedir ordens e obrigações, a servir restos dos mesmos aspectos míticos da antiguidade, onde o divino estava dividido entre os homens num jogo de favorecimento ao mais forte. O trabalho de reeducação é, por natureza, amoroso, e não pode, como o fez a antiga catequese, utilizar a força, ferir suscetibilidades, ainda que em nome da razão e da pureza evangélica

Esforcemo-nos por um tratamento mais humanizado à criança e ao jovem, se não quisermos vê-los, também, afastados do centro espírita. Que sejamos mais amáveis no trato com o trabalho de Evangelização da família, até porque temos como Guia e Modelo Aquele que nos ensinou a não excluir quem quer que seja. Por bem intencionados que estiveram, nem travestidos de espíritos superiores estas almas alcançaram, de inopino, o beneplácito da Luz, como ocorreu aos fieis servidores da lei antiga. Não serão os modelos participativos de gerenciamento que irão solucionar estes despropósitos.

Façamos com que nossos semelhantes vejam o Espiritismo como sendo a religião do amor, abrindo com sinceridade as portas da razão e do nosso coração para eles.”
Idemar MarinhoCompositor, servidor público e expositor de Doutrina Espírita.
Grupo Espírita Voluntários do Bem- São Gonçalo/RJ
“Sustentai a coragem na luta, consciente de que toda conquista nos domínios
do espírito reclama esforços e sacrifícios continuados” – Bezerra de Menezes”

Navegue pelos artigos

A Dádiva de Viver

Por vezes, você caminha pela vida com o olhar voltado para o chão, pensamento em desalinho, como quem perdeu o contato com sua origem divina.

Olha, mas não vê… Escuta, mas não ouve. Toca, mas não sente…

Perdido na névoa densa que envolve os próprios passos, não percebe que o dia o saúda e convida a seguir com alegria, com disposição, com olhar voltado para o horizonte infinito, que lhe acena com o perfume da esperança.

Considere que seu caminhar não é solitário e suas dores e angústias não passam despercebidas diante dos olhos atentos do Criador, que lhe concede a dádiva de viver.

Sua vida na terra tem um propósito único, um plano de felicidade elaborado especialmente para você.

Por isso, não deixe que as nuvens das ilusões e de revoltas infundadas contra as leis da vida, tornem seu caminhar denso e lhe toldem a visão do que é belo e nobre.

Siga adiante refletindo na oportunidade milagrosa que é o seu viver.

Inspire profundamente e medite na alegria de estar vivo, coração pulsante, sangue correndo pelas veias, e você, vivo, atuante, compartilhando deste momento do mundo, único, exclusivo. E você faz parte dele.

Sinta quão delicioso é o aroma do amanhecer, o cheiro da grama, da terra após a chuva, do calor do sol sobre a sua cabeça, ou da chuva a rolar sobre sua face.

Sinta o imenso prazer de estar vivo, de respirar. Respire forte e intensamente, oxigenando as idéias, o corpo, a alma.

Sinta o gosto pela vida. Detenha-se a apreciar as pequeninas coisas que dão sentido à vida.

Aquela flor miúda que, em meio à urze sobrevive linda, perfumosa, a brilhar como se fosse grande.

Sinta-se vivo ao apreciar o vôo da borboleta ou do pássaro à sua frente.

Escute os barulhos da natureza, a água a escorrer no riacho, ou simplesmente aprecie o céu, com suas nuvens a formar desenhos engraçados fazendo e desfazendo-se sob seus olhos.

Quão maravilhosa é a vida!

Mas, se o céu estiver escuro e você não puder olhá-lo, detenha-se no micro universo, olhe o chão.

Quanta vida há no chão…

Minúsculos seres caminhando na terra, na grama…

A formiga na sua luta diária pela sobrevivência…

A aranha, a tecer sua teia caprichosamente, e tantas coisas para ver, ouvir, sentir, cheirar, para fazer você sentir-se vivo.

Observar a natureza é pequeno exercício diário que fará você relaxar, esquecer por instantes as provas, ora rudes, ora amenas, que a vida nos impõe.

Somos caminhantes da estrada da reencarnação, somando, a cada dia, virtudes às nossas vidas ainda medíocres, mas que se tornarão luminosas e brilhantes.

Aprenda a dar valor à dádiva da vida. Isso fará o seu dia se tornar mais leve e, em silêncio, sem palavras, sem pensamentos de revolta, você terá tido um momento de louvor a Deus.

Aprenda a silenciar o íntimo agitado e a beneficiar-se das belezas do mundo que Deus lhe oferece.

A sabedoria hindu aprecia, na natureza, o que Deus desejou para ela: que fosse aliada do homem no seu progresso, oferecendo o alimento, dando-lhe os meios de defender-se das intempéries.

E, sobretudo, sendo o seu colírio diário suavizando as aflições da vida.

Pense nisso, e aprenda a dar graças pela dádiva de viver.

Espírito Stephano, psicografada por Marie-Chantal Dufour Eisenbach, na Sociedade Espírita Renovação em junho de 2005.

O Tempo

A Maioria dos homens não percebe ainda os valores infinitos do tempo.

Existem efetivamente os que abusam dessa concessão divina. Julgam que a riqueza dos benefícios lhes é devida por Deus.

Seria justo, entretanto, interrogá-los quanto ao motivo de semelhante presunção.

Constituindo a Criação Universal patrimônio comum, é razoável que todos gozem as possibilidades da vida; contudo, de modo geral, a criatura não medita na harmonia das circunstâncias que se ajustam na Terra, em favor de seu aperfeiçoamento espiritual.

E lógico que todo homem conte com o tempo, mas, se esse tempo estiver sem luz, sem equilíbrio, sem saúde, sem trabalho?

Não obstante a oportunidade da indagação, importa considerar que muitos raros são aqueles que valorizam o dia, multiplicando-se em toda parte as fileiras dos que procuram aniquilá-lo de qualquer forma.

A velha expresssão popular “ matar o tempo” reflete a inconsciência  vulgar, nesse sentido.

Nos mais obscuros recantos da Terra, há criaturas exterminando possibilidades sagradas. No entanto, um dia de paz, harmonia e iluminação, é muito importante para o concurso humano, na execução das leis divinas.

Os interesses imediatistas do mundo clamam que o “tempo é dinheiro”, para, em seguida, recomeçarem todas as obras incompletas na esteira das reencarnações…Os homens, por isso mesmo, fazem e desfazem, constroem e destroem, aprendem levianamente e recapitulam com dificuldade, na conquista da experiência.

Em quase todos os setores de evolução terrestre, vemos o abuso da oportunidade complicando os caminhos da vida; entretanto, desde muitos séculos, o apóstolo nos afirma que o tempo deve ser do Senhor.

Emmanuel – Francisco Cândido Xavier

O Espírita Verdadeiro é o Espírita-Cristão

Allan Kardec diz que, bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, o Espiritismo leva aos resultados expostos, que caracterizam o verdadeiro espírita, como o cristão verdadeiro, pois que um o mesmo é que outro. O Espiritismo não constitui nenhuma nova moral; apenas facilita aos homens a inteligência e a prática da do Cristo, facultando fé inabalável e esclarecida aos que duvidam ou vacilam.                                                     Sem as luzes do Evangelho, o Espiritismo corre o risco de perder-se no discurso.              Não basta ativar as mentes, pela lógica do raciocínio. É preciso, é urgente despertar o sentimento fraterno, para apressar o advento do Reino de Jesus no mundo. Não é à-toa que Kardec, ao classificar os verdadeiros espíritas, os nomeia como “espíritas-cristãos” . Jesus, na verdade, é quem segue à frente do movimento espírita, no Brasil e no mundo.

O evangelista Marcos relata que Jesus, após a ressurreição (aparição visível e tangível), recomendou aos discípulos: “Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a todas as criaturas” (XVI:15).

Atendendo a essa determinação, muitos deles, embora incompreendidos, perseguidos, apedrejados ou encarcerados, levaram a mensagem da Boa Nova a sofredores e aflitos, escravos e senhores, ricos e pobres, às vítimas da maldade humana e aos seus próprios verdugos…

Alguns anos após o drama do Calvário, Paulo de Tarso, o Convertido de Damasco, compreendeu a necessidade de liberar a palavra evangélica dos círculos farisaicos, que ele tão bem conhecia, como ex-rabino.

Paulo dedicou-se à difusão da mensagem do Cristo entre os gentios, cujos corações, livres de quaisquer preconceitos, apresentam-se como terra fértil, pronta para a semeadura e a colheita de frutos de genuína fraternidade.

As comunidades de Filipos, Corinto, Tassalônica, entre outras, deram impulso ao Cristianismo, garantindo a consolidação das novas idéias no mundo.

Nos séculos seguintes, outros discípulos do Senhor, vencendo os obstáculos da indiferença, reavivaram os ensinamentos do Cristo, clareando o caminho dos homens.

Há pouco mais de um século, o Espírito da Verdade, à frente de uma legião de obreiros do bem, trouxe a mensagem da Terceira Revelação, como fora profetizado pelo próprio Jesus.

Aprendizes da Doutrina do Cristo, restaurada em seus fundamentos simples e puros, ouçamos novamente a determinação do Mestre, difundindo as verdades eternas e imutáveis do Evangelho.

Não nos faltam meios para empreender tal tarefa. Os livros básicos de Allan Kardec e as obras complementares, de diversos autores, oferecem material suficiente para a difusão da moral cristã, à luz do Espiritismo.

Não basta, no entanto, entusiasmo para a divulgação da Terceira Revelação, codificada por Kardec por determinação de Jesus. É imprescindível a prática cristã.

Aquele que ensina sem dar o exemplo assemelha-se ao vendedor que recebeu as sementes já selecionadas por outros. O que vive sua crença, no entanto, oferece as sementes que ele próprio selecionou, depois de as ter experimentado, acompanhando de perto o plantio. Não somente reparte sementes, como orienta o plantador quanto aos possíveis problemas que possam surgir, da sementeira até a colheita.

Um se ergue no púlpito e ensina a teoria, enquanto o outro é o técnico que convence pela prática.

Decerto não deixaremos diminuir o entusiasmo na divulgação, apenas porque estamos longe da vivência integral dos ensinamentos de Jesus, mas é necessário recordarmos o próprio evangelista Marcos (XVI:20): Os discípulos saíram pregando o Evangelho, e o Senhor com eles colaborava, confirmando os sinais que os seguiam?.

Portanto, para obtermos a colaboração do Mestre Jesus, por meio da inspiração, apresentemos os sinais da nossa renovação íntima. Devemos aplicar a nós mesmos, com rigor, os conceitos ditados aos outros. Somente assim, poderemos nos identificar com o Cristo e influenciar positivamente os que nos escutam, sem necessidade de ocultar as nossas muitas imperfeições morais.

Disse Jesus que aquele que”cresse, seria salvo”. Para a Doutrina Espírita, salvar significa libertar o homem do erro. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O que deve distinguir o espírita-cristão é o seu esforço em expulsar o “homem velho”, aprisionado no erro e na mentira.

A prática da moral cristã é o sinal de que estamos seguindo o Cristo, atuando junto àqueles que ainda precisam ver (as nossas obras) para crer e serem salvos.

Brunilde Mendes

Retirado da Revista Estudos Espíritas

A Chama da Alma

Havia um rei que apesar de ser muito rico, tinha a fama de ser um grande doador, desapegado de sua riqueza. De uma forma bastante estranha, quanto mais ele doava ao seu povo, auxiliando-o, mais os cofres do seu fabuloso palácio se enchiam.

Um dia, um sábio que estava passando por muitas dificuldades, procurou o rei. Ele queria descobrir qual era o segredo daquele monarca.

Como sábio, ele pensava e não conseguia entender como é que o rei, que não estudava as sagradas escrituras, nem levava uma vida de penitência e renúncia, ao contrário, vivia rodeado de luxo e riquezas, podia não se contaminar com tantas coisas materiais.

Afinal, ele, como sábio, havia renunciado a todos os bens da terra, vivia meditando e estudando e, contudo, se reconhecia com muitas dificuldades na alma. Sentia-se em tormenta. E o rei era virtuoso e amado por todos.

Ao chegar em frente ao rei, perguntou-lhe qual era o segredo de viver daquela forma, e ele lhe respondeu: “Acenda uma lamparina e passe por todas as dependências do palácio e você descobrirá qual é o meu segredo.”

Porém, há uma condição: se você deixar que a chama da lamparina se apague, cairá morto no mesmo instante.

O sábio pegou uma lamparina, acendeu e começou a visitar todas as salas do palácio. Duas horas depois voltou à presença do rei, que lhe perguntou: “Você conseguiu ver todas as minhas riquezas?”

O sábio, que ainda estava tremendo da experiência porque temia perder a vida, se a chama apagasse, respondeu: “Majestade, eu não vi absolutamente nada. Estava tão preocupado em manter acesa a chama da lamparina que só fui passando pelas salas, e não notei nada.”

Com o olhar cheio de misericórdia, o rei contou o seu segredo:

“Pois é assim que eu vivo. Tenho toda minha atenção voltada para manter acesa a chama da minha alma que, embora tenha tantas riquezas, elas não me afetam.”

“Tenho a consciência de que sou eu que preciso iluminar meu mundo com minha presença e não o contrário.”

O sábio representa na história as pessoas insatisfeitas, aquelas que dizem que nada lhes sai bem. Vivem irritadas e afirmam ter raiva da vida.

O rei representa as criaturas tranqüilas, ajustadas, confiantes. Criaturas que são candidatas ao triunfo nas atividades que se dedicam. São sempre agradáveis, sociáveis e estimuladoras.

Quando se tornam líderes, são criativas, dignas e enriquecedoras.

Deste último grupo saem os que promovem o desenvolvimento da sociedade, os gênios criadores e os grandes cultivadores da verdade.

***

Com ligeiras variações, é o lar que responde pela felicidade ou a desgraça da criatura. É o lar que gera pessoas de bem ou os candidatos à perturbação.

É na infância que o espírito encarnado define a sua escala de valores que lhe orientará a vida.

Por tudo isto, o carinho, na infância, o amor e a ternura, ao lado do respeito que merece a criança, são fundamentais para a formação de homens saudáveis, ricos de beleza, de bondade, de amor que influenciam positivamente a sociedade onde vivem.

Em nossas mãos, na condição de pais, repousa a grande decisão:

como desejamos que sejam os nossos filhos tranqüilos como o rei ou atormentados como o sábio.

Autor:
Equipe de Redação do Momento Espírita, a partir de texto da obra A paz começa com você, ed. Gente, autoria de O’Donnel, e cap. 3 da obra Momentos de Consciência, de Divaldo Pereira Franco.