Semeia, semeia…

A alma humana é como um celeiro abençoado.

Quando abastecida de ensinos superiores, transforma-se em manancial de luz, saciando a fome de consolação da humanidade sofredora.

Vazia, porém, fica sujeita à poeira de inércia e ao mofo do desânimo.

Se já reúnes as sementes do Evangelho em tua alma, não as guardes só para ti.

Vai ao mundo e semeia, semeia…

Ainda que a ventania da indiferença as disperse pelo espaço, semeia, semeia…

Mesmo que a erosão do egoísmo as arraste para longe, semeia, semeia...

Ainda que o solo estéril do desamor as impeça de se desenvolverem, semeia, semeia...

Onde quer que estejas e com quem estejas, semeia, semeia…

Não exijas, porém, em tempo algum, a colheita farta e rápida porque, se cada espécie vegetal no mundo obedece ao ciclo próprio de desenvolvimento, cada alma humana também tem o tempo certo para despertar e sublimar-se.

Scheilla, por Clayton Levy.

 

Qual é o nosso maior adversário?

Entrevistado por um canal de TV ligado à Globosat, conhecido poeta, referindo-se a seus colegas da atual geração, revelou ao repórter o que um deles, atualmente radicado em Minas Gerais, lhe declarou: “Os poetas se odeiam uns aos outros”.

A revelação não constitui nenhuma novidade porque algum tempo atrás, em entrevista publicada no jornal O Estado de São Paulo, outro importante poeta afirmou: “No Brasil, que é tão grande, os poetas ficam muito isolados – e ainda falam muito mal uns dos outros, aumentando ainda mais essa distância. Recentemente estive em Fortaleza, cidade onde os poetas brigam entre si, se odeiam. Há muitos lugares em que poetas de grupos diferentes jamais se falam, nem mesmo se cumprimentam! A circulação da poesia fica, em consequência, ainda mais difícil”.

Estamos falando de pessoas que fazem poesia e, em muitos casos, vivem de poesia – e não de marginais que cumprem pena em algumas de nossas penitenciárias!

A inferioridade do ser humano é algo que não deveria, obviamente, causar-nos surpresa alguma, embora seja difícil entender, excluída a possibilidade da pluralidade das existências, por que nosso mundo é assim tão complicado e imperfeito.

De fato, se a criatura humana surgisse no cenário do mundo e aqui vivesse uma única vez, não se compreenderia por que Deus teria produzido indivíduos tão problemáticos, que só pensam em si, que não têm limites em suas ambições e que buscam o sucesso a qualquer preço, ainda que à custa do próximo.

O Criador não tem, porém, responsabilidade alguma nas tolices, nas falcatruas, nas maldades que o ser humano, ao longo da história, tem perpetrado. Ele nos criou simples e ignorantes, e é justamente em face da pluralidade das existências que conseguimos, aos poucos, melhorar-nos, com vistas à meta que Ele assinalou a cada um de nós, ou seja, a perfeição.

Na principal obra escrita por Allan Kardec, o codificador da doutrina espírita escreveu:

“(…) as faltas que cometemos têm por fonte primária a imperfeição do nosso próprio Espírito, que ainda não conquistou a superioridade moral que um dia alcançará, mas que, nem por isso, carece de livre-arbítrio. A vida corpórea lhe é dada para se expungir de suas imperfeições, mediante as provas por que passa, imperfeições que, precisamente, o tornam mais fraco e mais acessível às sugestões de outros Espíritos imperfeitos, que delas se aproveitam para tentar fazê-lo sucumbir na luta em que se empenhou. Se dessa luta sai vencedor, ele se eleva; se fracassa, permanece o que era, nem pior, nem melhor. Será uma prova que lhe cumpre recomeçar, podendo suceder que longo tempo gaste nessa alternativa. Quanto mais se depura, tanto mais diminuem os seus pontos fracos e tanto menos acesso oferece aos que procurem atraí-lo para o mal. Na razão de sua elevação, cresce-lhe a força moral, fazendo que dele se afastem os maus Espíritos.

Todos os Espíritos, mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana e, como o nosso mundo é um dos menos adiantados, nele se conta maior número de Espíritos maus do que de bons. Tal a razão por que aí vemos tanta perversidade.” (O Livro dos Espíritos, item 872, parte final.) (Negritamos.)

A informação de que há na Terra maior número de Espíritos maus do que bons pode ser conferida nas duas obras seguintes:

“Vivendo encarnados no Planeta quase dois bilhões de individualidades humanas, esclareceu o benfeitor que mais de um bilhão é constituído por Espíritos semi civilizados ou bárbaros e que as pessoas aptas à espiritualidade superior não passam de seiscentos milhões, divididas pelas várias famílias continentais.” (Voltei, de Irmão Jacob, obra psicografada por Chico Xavier. A informação, relativa ao ano de 1948, consta do capítulo “Recebendo explicações”.)

“A determinadas horas da noite, três quartas partes da população de cada um dos hemisférios da Crosta Terrestre se acham nas zonas de contacto conosco e a maior percentagem desses semi libertos do corpo, pela influência natural do sono, permanecem detidos nos círculos de baixa vibração qual este em que nos movimentamos provisoriamente. Por aqui, muitas vezes se forjam dolorosos dramas que se desenrolam nos campos da carne. Grandes crimes têm nestes sítios as respectivas nascentes…” (Libertação, de André Luiz, cap. 6, Observações e novidades, obra psicografada por Chico Xavier. A região a que se refere o autor é chamada, na terminologia espírita, de trevas.) (Negritamos.)

A explicação do que lemos nos textos acima tem relação direta com a natureza do planeta em que vivemos e com sua atual destinação, que o Espiritismo nos revela no texto seguinte:

“Os Espíritos em expiação, se nos podemos exprimir dessa forma, são exóticos na Terra; já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons. Tiveram de ser degredados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios da vida. É que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas, cujo senso moral se acha mais embotado.

A Terra, conseguintemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como caráter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III, itens 14 a 15.)

Todos temos, como se vê, um árduo e longo caminho pela frente, mas nosso maior adversário somos nós mesmos, ou seja, o “homem velho” que reside em nós, como dizia o inolvidável Paulo de Tarso.

Editorial – O Consolador

Libertação Espiritual

Às vezes me preocupava o mecanismo das leis cármicas. Pensava eu que a série de ações e reações se estendesse em espirais infinitas pelo tempo a fora. E isso me parecia contrário à ideia que sempre formulei da justiça divina.

Se ontem, num momento infeliz de desvario, estrangulei um irmão, alguém teria que me estrangular no futuro, para que se cumprisse a lei. Mas, o novo crime haveria de gerar, fatalmente, uma nova reação, abrindo outro ciclo e assim por diante, “ad infinitum”. De mais a mais, não havia, também, a dureza do “olho por olho, dente por dente”?

Acontece, porém, que as leis divinas são muito mais sábias e perfeitas do que sonhamos. Ao descer até nós, vindo das mais elevadas esferas espirituais, o Divino Mestre nos trouxe a mensagem da verdade suprema da vida – o amor. E como Ele próprio dizia, não vinha destruir a lei, mas fazê-la cumprir. Não se alterava a substância dos postulados cármicos; ficavam eles, porém, esvaziados do seu conteúdo de inexorabilidade, para adquirirem o suave colorido da reparação.

Ensinava o Amigo Sublime que só uma atitude poderia quebrar o círculo vicioso: o amor. Na verdade, colocou tão alto o conceito e a prática do amor entre as criaturas, que fez disso a nota dominante, o tema, o “leit motiv” de toda a sua insuperável pregação. A certa altura da vida, com o poder de síntese e de acuidade de que era dotado, no mais alto grau, como se quisesse deixar, numa só ideia, toda a sabedoria da vida – disse simplesmente: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.” Já meditou o amigo leitor, com seriedade, na beleza e na profundidade daquela simples frase? Ela contém, não somente o mandamento supremo da lei – que séculos antes havia sido transmitido a Moisés –, como, também, a afirmação de que Ele, o Cristo, viera demonstrar e praticar a verdade do amor e não somente pregá-la. Aqueles que vivessem tal filosofia da vida estariam cumprindo a lei e seguindo os ensinos revelados pelos profetas através das idades.

Estava o Mestre oferecendo, a cada um de nós, os recursos necessários para que nós mesmos nos libertássemos das imposições do “olho por olho”.

Bastava amar. Quando nos pedissem para caminhar mil passos, caminhássemos mais dois mil por nossa conta. Se nos batessem em uma face, oferecêssemos a outra. Era lícito perdoar sete vezes? Perguntaram-lhe. Não sete, mas setenta vezes sete, foi a resposta.

Aí está o ponto onde se quebra a corrente cármica, se o desejarmos: na prática do amor e do perdão. Bem sabemos que é mais fácil falar que praticar, enquanto estivermos contidos pela nossa imperfeição, mas se perdoamos àquele que em nós feriu a lei e o ajudamos a recuperar-se, estaremos, por nossas próprias mãos, partindo o círculo de ferro. Se ainda não atingimos a perfeição moral de oferecer a outra face, caminhemos pelo menos a outra milha, os outros dois mil passos, para oferecer a nossa prece em favor daquele que nos ofendeu. Esse gesto talvez represente, nas telas infinitas do tempo, o progresso e a libertação de irmãos aos quais provavelmente devemos tantas outras reparações.

Graças a Deus, a despeito dos desacertos da época em que vivemos, há bastante beleza moral neste mundo. Muitos espíritos se deixaram impregnar de tal forma por esse perfume de amor e perdão, que imprimiram a marca de sua passagem na História.

Francisco de Assis, num transbordamento de amor incontido, pregava tanto aos homens como aos humildes seres da criação, procurando atrair todos para a luz.

Tereza d’Ávila, em transportes de amor sublimado pelo Mestre, vivia entre este mundo e o outro.

Joana d’Arc, sob a pressão desencadeada do poder terreno, não cessou de amar e perdoar.

Gandhi, na fragilidade física, era um gigante de força espiritual e moral no seu amor pacifista pelos irmãos deserdados.

Albert Schweitzer, mergulhado no coração da selva africana, cura, ensina, educa, ampara, sem outra paga que a satisfação de exercer o amor pelo ser humano.

Conhecemos, pois, o caminho da recuperação, aquele que leva para o Alto. É preciso rogar forças para que saibamos segui-lo; pedir a Jesus que nos amplie a capacidade de amar e compreender. Não que essa atitude seja de passividade inútil. Não. Amar, no mais puro sentido, é um programa de ação, é um roteiro de lutas, porque implica, em primeiro lugar, o combate ao nosso comodismo através dos milênios.

Esse egoísmo cego talvez fosse necessário quando, na meia luz da consciência que despontava em nosso ser, nos distantes períodos encarnatorios, ainda não sabíamos que a vida continua depois da morte. Vivíamos, então, agarrados ferozmente ao corpo físico e às coisas da matéria, e por ela lutávamos, matávamos e roubávamos.

Hoje não. Iluminados pela verdade superior, sabemos que o corpo é mero instrumento – e dos mais nobres – de trabalho e de evolução e, por estranho que pareça, quanto mais trabalhamos para os outros, mais realizamos para nós mesmos. Vemos, assim, que o egoísmo se sublimou numa forma superior de sentimento, pois que, por amor a nós mesmos e ao nosso progresso espiritual, somos levados a amar os outros. Então, isto tudo não é belo e maravilhosamente perfeito?

E quando dizemos que o amor é um programa de trabalho e de luta é porque temos que exercê-lo ativamente, esclarecendo, pelejando contra o erro, ajudando aos que precisam de ajuda, tolerando, enfim, porque essa é a lei que nos oferece a chave da libertação.

MARCUS, João. “Candeias na noite escura”. Pseudônimo de Hermínio C. Miranda