O Perispírito e suas modelações

 

Como será o tecido sutil da espiritual roupagem que o homem envergará, sem o corpo de carne, além da morte?

Tão arrojada é a tentativa de transmitir informes sobre a questão aos companheiros encarnados, quão difícil se faria esclarecer à lagarta com respeito ao que será ela depois de vencer a inércia da crisálida.

Colado ao chão ou à folhagem, arrastando-se, pesadamente, o inseto não desconfia que transporta consigo os germes das próprias asas.

O perispírito é, ainda, corpo organizado que, representando o molde fundamental da existência para o homem, subsiste, além do sepulcro, demorando-se na região que lhe é própria, de conformidade com o seu peso específico.

Formado por substâncias químicas que transcendem a série estequiogenética conhecida até agora pela ciência terrena, é aparelhagem de matéria rarefeita, alterando-se, de acordo com o padrão vibratório do campo interno.

Organismo delicado, com extremo poder plástico, modifica-se sob o comando do pensamento.

É necessário, porém, acentuar que o poder apenas existe onde prevaleçam a agilidade e a habilitação que só a experiência consegue conferir.

Nas mentes primitivas, ignorantes e ociosas, semelhante vestimenta se caracteriza pela feição pastosa, verdadeira continuação do corpo físico, ainda animalizado ou enfermiço.

O progresso mental é o grande doador de renovação ao equipamento do espírito em qualquer plano de evolução.

Note-se, contudo, que não nos reportamos aqui ao aperfeiçoamento interior.

O crescimento intelectual, com intensa capacidade de ação, pode pertencer a inteligências perversas.

Daí a razão de encontrarmos, em grande número, compactas falanges de entidades libertas dos laços fisiológicos, operando nos círculos da perturbação e da crueldade, com admiráveis recursos de modificação nos aspectos em que se exprimem.

Não possuem meios para a ascese imediata, mas dispõem de elementos para dominar no ambiente em que se equilibram.

Não adquiriram, ainda, a verticalidade do Amor que se eleva aos santuários divinos, na conquista da própria sublimação, mas já se iniciaram na horizontalidade da Ciência com que influenciam aqueles que, de algum modo, ainda lhes partilham a posição espiritual.

Os “anjos caídos” não passam de grandes gênios intelectualizados com estreita capacidade de sentir.

Apaixonados, guardam a faculdade de alterar a expressão que lhes é própria, fascinandoe vampirizando nos reinos inferiores da natureza.

Entretanto, nada foge à transformação e tudo se ajusta, dentro do Universo, para o geral aproveitamento da vida.

A ignorância dormente é acordada e aguilhoada pela ignorância desperta.

A bondade incipiente é estimulada pela bondade maior.

O perispírito, quanto à forma somática, obedece a leis de gravidade, no plano a que se afina.

Nossos impulsos, emoções, paixões e virtudes nele se expressam fielmente.

Por isso mesmo, durante séculos e séculos nos demoraremos nas esferas da luta carnal ou nas regiões que lhes são fronteiriças, purificando a nossa indumentária e embelezando-a, a fim de preparar, segundo o ensinamento de Jesus, a nossa veste nupcial para o banquete do serviço divino.

Emmanuel  Psicografia de Francisco Cândido Xavier

Ingratidão dos filhos.

Como superar?

Dia desses recebi e-mail de uma mãe alegando sofrer demais com a ingratidão do filho. Estava ela numa cadeira de rodas, com o pé quebrado, e o rapaz, forte e saudável, recusou-se a ajudá-la. Naturalmente que, como mãe e ser humano que é, ficou chateada a indagar:

Que fiz eu, meu Deus, para merecer filho tão ingrato, que em nada ajuda a mãe, mesmo quando ela necessita?

Santo Agostinho, em O Evangelho segundo o Espiritismo, da-nos sábias lições em mensagem intitulada – A ingratidão dos filhos e os laços de família.

Diz-nos o Espírito de Agostinho que Deus não faz provas superiores às nossas forças, e que podemos vencer o complicado desafio da ingratidão dos filhos.

Indica deixarmos de olhar apenas o presente e voltarmos os olhos ao passado para, com a ideia das múltiplas existências, encontrarmos um consolo e forças para prosseguir.

Pois bem, não é tarefa fácil deixar de esperar reconhecimento, ainda mais de alguém tão ligado a nós pelos laços do coração e do sangue, como os filhos.

O próprio Agostinho reconhece como são complicados os assuntos pertinentes ao coração. Muito mais difícil enfrentar a ingratidão do que a mesa escassa.

Seria mesmo grande ingenuidade considerar que não brotará um mínimo de decepção no indivíduo que recebe a indiferença, quando não a aversão de alguém tão querido.

Entretanto, vale lembrar que estamos no Planeta Terra, orbe de provas e expiações, e, portanto, o impossível é Deus errar. Logo, ingratidão, venha de quem vier é sempre algo possível e até comum de acontecer.

Aliás, eis a vida mostrando isto em todos os instantes.

O grande ponto é aprendermos a lidar com ela, a ingratidão, principalmente dos mais caros a nós.

Ou, melhor, iniciarmos o processo de não esperar nada, absolutamente nada de quem quer que seja.

Como fazer isto?

É um trabalho íntimo que requer muito esforço, porém, é possível realizá-lo.

Evoluir de tal modo que nosso agir seja sempre no bem, independentemente do que outras pessoas irão pensar ou falar, até porque isto não nos diz respeito.

Treinar o desapego do reconhecimento, pois será isto que nos dará a independência do “Obrigado”.

A caridade que praticamos, o amor que doamos, as provas de renúncia e abnegação, o suor que vertemos em benefício alheio, em realidade, ajuda muito mais a nós do que ao outro, pois somos sempre os primeiros beneficiados pela caridade praticada.

É como consta em O Evangelho segundo o Espiritismo, na mensagem de Lázaro denominada “O dever”. O dever, em primeiro lugar, é para comigo, depois com o outro. Ora, se o dever é para comigo, então, vou estender minha mão ao outro, pois será assim que trabalharei pela minha própria evolução.

Quem acende em si a luz da caridade ilumina quem está ao redor e jamais ficará imerso nas trevas.

Portanto, agradecer é dever de quem recebe, mas nem todos cumprem o dever.

Entretanto, não esperar gratidão, reconhecimento ou mesmo um mero obrigado é o antídoto para livrar-se da decepção.

Tornar a prática do bem um hábito, de tal modo que dia chegará em que agiremos no bem sem perceber, e de forma tão espontânea que agradeceremos quando recebermos e não cobraremos quando beneficiarmos…

Assim, livres de nos sentirmos vítimas da ingratidão alheia, seguiremos nosso caminho sempre fazendo o bem, não por recompensa, mas porque é um hábito que adquirimos com muito treino e vontade de gozar um pouco de liberdade que só o bem nos concede.

Wellington Balbo

Novas enfermidades, vícios antigos…

 

Atualmente vive-se o surgimento de novas doenças em uma velocidade espantosa. Zika vírus, chikungunya e outros males preocupam a sociedade. Alguns estudos apontam que o Zika vírus tem relação com a microcefalia, o que deixa muitos pais atônitos com a possibilidade de que seus rebentos venham nascer portadores do mal acima citado.
Recentemente um colega, grávido de trigêmeos, lotou as prateleiras de sua casa com repelentes para evitar que a esposa corresse o perigo de ser picada pelo mosquito aedes aegypt, transmissor do Zika. Pernas pra que te quero e repelente no corpo, disse ele. Fato é que as novidades, sejam em qualquer campo, causam curiosidade e, a priori, assustam, principalmente as novidades que dizem respeito à saúde do corpo, algo que todos prezam tanto.
Estima-se que o ser humano acumula atualmente um novo elemento patogênico por ano. E muitos fatores colaboram para isso. O homem mudou seu estilo de vida, hoje interage muito mais com os animais em seus ambientes, além das viagens internacionais, a globalização e, também, a criação de animais exóticos, tudo isso e mais outros fatores geram condições para que se desenvolvam novos elementos patogênicos.
Novas doenças, chance de o homem exercitar sua inteligência – Cada nova doença representa para o homem de ciência desafio ao seu intelecto e oportunidade de progresso, pois deve ele – o homem de ciência – entregar-se de corpo e alma ao estudo e pesquisa para oferecer à sociedade uma resposta. E essa entrega o leva a novas descobertas, ou ao menos abre caminho para que outros desbravem os horizontes da cura para os males do corpo.
Portanto, o trabalho duro em torno da cura de uma determinada doença afia a inteligência daqueles que se debruçam em estudá-la e os leva ao progresso. Como evoluiria o homem sem os desafios naturais que o convidam a pular sempre mais alto? É nas aparentes adversidades que Deus vai dando oportunidade para o crescimento de seus filhos.
Quando o tempo passa e olhamos para trás constatamos as conquistas advindas daquele embate contra esta ou aquela patologia e entendemos o salto que foi dado pelo ser humano a mostrar que mais uma etapa foi vencida.
Enfermidade educativa – Segundo o Espiritismo a Terra pertence à categoria de mundos de provas e expiações. Habitantes de planetas deste nível já tiveram algum progresso, basta observar os avanços, principalmente nas questões pertinentes à ciência e tecnologia, entretanto, o comportamento moral ainda atrasado demonstra uma inferioridade que deve, naturalmente, ser vencida.
Uma das formas de vencer a inferioridade moral, claro que não a única, é a provação por meio da enfermidade. A enfermidade não raro atua como um freio e, também, como um meio para educar o indivíduo.
Um fumante inveterado recebe o alerta médico de que é preciso parar com o vício, entretanto, faz ouvidos moucos. Então, pela lei de causa e efeito colhe um problema em seus pulmões; problema este que o educará mostrando que é necessário domar aquela inclinação ao tabaco. Seja este homem um teimoso e prossiga com seu vício, os apertos orgânicos serão ainda maiores a imputar-lhe dores e sofrimento, não com o objetivo de puni-lo, mas com o único intuito de fazê-lo compreender que o corpo físico é sagrado templo do Espírito imortal para suas vivências terrenas, logo, não pode ser massacrado pelo fumo.
Este homem lesará seu corpo espiritual e, por consequência da lesão no perispírito, seu corpo físico, em posterior existência (quando não na mesma), apresentará alguns problemas decorrentes de seu vício de outrora. Aprenderá, por meio dos dissabores que orientam, a tratar-se com o devido respeito.
Perceba, porém, que este é apenas um dos infinitos exemplos que podem ser citados para a ilustração de como a enfermidade tem o caráter de educar, mas não o de punir.
Entretanto, para crescer pela dor e pelas enfermidades não basta apenas estar portador delas, algo mais se faz necessário. É preciso ter resignação e aceitar a condição temporária do estar portador desta ou daquela doença. Eis a grande questão. A condição de enfermo é apenas temporária, jamais definitiva. Não somos Zika, estamos com Zika, não somos HIV positivo, estamos com HIV positivo. Tudo passa, e com as enfermidades não é diferente.
Jesus disse: A verdade liberta. Pois sim, conhecendo a verdade, ou seja, que estamos num mundo de provas e expiações, saberemos que as aflições virão, mas é possível vencê-las.
Em O livro dos Espíritos Allan Kardec indaga aos mentores se podemos vencer as provações da existência. A resposta é clara. Dizem os sábios espirituais que podemos vencer qualquer desafio, mas é imperioso o esforço. E informam que poucos se empenham para vencer os desafios. Uma mensagem repleta de otimismo a dizer-nos:
Vão em frente, cresçam, prossigam, depende de vocês!
E nascemos para vencer e não para perder.
E as indagações, como não poderiam deixar de ser, na busca pela verdade, sucedem-se: Por que o homem está submetido a antigas e novas formas de doença? Por que alguns adoecem com mais facilidade do que outros?
Perguntas interessantes, mas que só terão resposta satisfatória quando analisadas sob o prisma da imortalidade da alma.
Submetido está a antigas e novas doenças porque vive num mundo de provas e expiações, em que por conta de seu pouco desenvolvimento moral ainda encontra-se subordinado a aprendizados, digamos, dolorosos.
Melhore o homem moralmente e suas existências ficarão mais leves, sem a pesada e densa equação da dor para resolver.
Quando o foco está apenas na existência atual, de fato as novas patologias chocam, pois demonstram estar reinando num mundo onde Deus deveria existir e, portanto, fazer-se soberano, haja vista seus atributos.
Mas quando mudamos o foco e enxergamos a imortalidade da alma e as existências sucessivas, a coisa muda de figura, e tudo faz sentido porque tem uma explicação palatável.
Basta, como ensinam os Espíritos, o homem fazer uma reflexão profunda das razões pelas quais determinada patologia o visita. Se ele for sincero e não encontrar razões nesta existência, fatalmente a causa estará no passado.
E se hoje ele passa por isso é porque Deus sabe que tem condições de resgatar esse débito e sair vencedor de sua jornada.
Oportunidade de exercitar o amor – Um outro ponto interessante a anotar é o de que as enfermidades, sejam elas novas ou antigas, servem para despertar no homem o amor pelo seu semelhante. Ao praticar a lei de amor e caridade o ser humano faz de tudo para suavizar as dores do próximo, não caminhando por ele, mas socorrendo-o diante da dolorosa provação da enfermidade física.
São os casos das famílias saudáveis fisicamente, mas que recebem em seu seio um indivíduo com graves problemas de saúde. Quando situações assim ocorrem vale lembrar que a prova é para toda a família e não apenas para um único indivíduo.
Ensinam os Espíritos que numa sociedade que pratica a lei de amor o forte ampara o fraco, portanto, o familiar com saúde debilitada é no momento alguém que se encontra fragilizado a requerer nossa atenção e cuidados.
Recordo-me de uma família composta por 3 filhos, marido e esposa, total de 5 pessoas. A mãe com os meninos ainda adolescentes teve trombose cerebral e ficou inválida na cama. Os papéis se inverteram, ao invés dela cuidar dos filhos, os filhos tiveram de, ainda jovens, abraçar a tarefa. Complicado, é verdade. Mas, não obstante suas limitações, todos encararam o dever e o cumpriram com zelo. Mais interessante: não viam a mãe como um fardo, mas, sim, como alguém necessitando ainda mais de amor.
O que está por trás disso?
Não sabemos no momento, contudo, é fato que o impossível é Deus errar, logo, há alguma causa razoável para esta provação e que neste instante escapa-nos a ciência.
A provação teve pouco mais de 27 anos de duração. Após o desencarne da mãe todos se sentiram liberados para tocarem suas vidas de maneira, digamos, um pouco mais livre.
A realidade é que tudo passa nesta vida e cabe-nos enfrentar toda e qualquer situação com coragem e certeza de que Deus não nos abandona jamais. Este, aliás, um grande alento saber que estamos sendo cuidados pela inteligência suprema. Não há nada mais competente do que isso.
Portanto, em face de qualquer enfermidade, seja nova ou antiga, utilizemos do exercício da serenidade, este bem tão precioso que nos proporcionará passar por qualquer desafio existencial de forma mais leve.
Sem serenidade não se atravessa a rua, com serenidade damos a volta ao mundo.
Pois é, caro leitor, novas doenças, porém os vícios são antigos, ainda são os mesmos…

Wellington Balbo

A diferença entre a corrupção política e a corrupção do dia a dia.

Em um vídeo que circula na internet o historiador Leandro Karnal explica que a corrupção não está só na política mas em todos os lugares, no uso indevido da vaga de deficiente, no recibo falso usado na declaração do imposto de renda, no favor de quem pede para “tirar” uma multa de transito, e explica que esta corrupção se repete até os altos escalões do governo.

Mas existem grandes diferenças nas consequências destes dois tipos de corrupção. Por exemplo, imaginemos um engenheiro que possua uma renda de $10 mil por mês more em um condomínio pagando uma taxa de condomínio de $400, da qual são desviados $100 por um esquema fraudulento do síndico. Isto significa que este engenheiro terá 1% de sua renda de $10 mil desviada indevidamente para o bolso do corrupto. Mas imaginando que este engenheiro seja uma pessoa normal, com um comportamento que não esteja muito acima da média em termos de honestidade, ele provavelmente irá praticar algum ato que lhe dê uma vantagem indevida de $100, por exemplo quando ele consegue um favor de alguém que anula uma multa por ter estacionado na vaga de deficiente. Repare que no final ficou tudo “elas por elas” ou conforme o ditado “se todo mundo levar vantagem em tudo, ninguém leva vantagem em nada”.

A corrupção política gera acumulação de riqueza em larga escala, algumas das construtoras envolvidas em escândalos recentes no Brasil acumularam nos últimos anos grandes fortunas, transformadas em monopólios legalizados na forma de rodovias, ferrovias, estaleiros etc. Os grandes empresários corruptos do passado são hoje gigantes que monopolizam “honestamente” setores importantes da economia como transportes, telecomunicações, agronegócio, indústria, redes de televisão e tudo o mais que se possa imaginar. A possibilidade de roubo em larga escala por uma parcela muito pequena da população gera enormes concentrações de poder e desigualdade social, diferentemente da corrupção do dia a dia que gera pequenos prejuízos e vantagens mútuas entre pessoas comuns.

Ao contrário dos pequenos atos de desonestidade do dia a dia, os grandes empresários corruptores e seus políticos corrompidos possuem o poder de moldar a sociedade em uma estrutura extremamente desigual. Por exemplo, há séculos atrás os traficantes de escravos conseguiram a aprovação da igreja para legalizar o seu negócio, distorcendo mais uma vez as leis da igreja cristã que  governava a sociedade da época, resultando em uma desigualdade que não conseguimos superar até hoje. Esta e outras tantas grandes injustiças do passado criaram a sociedade brasileira, uma das mais desiguais do mundo. Mas uma vez estabelecida esta desigualdade social, os poderosos passam a corromper os governos para que impeçam a reversão do sistema, mesmo que as leis futuras como as da nossa constituição de 1988 atendam justamente o desejo da população de ver revertidas as injustiças hereditárias, a corrupção da classe política opera justamente para impedir este processo, ao corrupção política opera constantemente para impedir a execução do que está estipulado nas chamadas leis progressistas.

Como cristãos buscamos sempre nos tornarmos pessoas melhores e queremos também ver a sociedade reformada com a fim da corrupção política, mas para isso precisamos aprender a nos interessar mais pelos resultados das nossas escolhas políticas. Ao invés do nosso comportamento de costume que consiste em adotar um “time” e torcer por ele, elegendo de pronto os nossos heróis e vilões e torcendo para a derrota do outro lado, precisamos aprender a escolher políticos realmente compromissados com o combate à corrupção. Um bom ponto de início para esta difícil escolha seria se recusar a votar em qualquer político que tenha sido beneficiado com doações de empresários envolvidos em esquemas de corrupção, seja de qual partido for, esteja ou não sendo denunciado ou investigado, podemos deduzir razoavelmente que o político que aceita este tipo de doação não pode estar seriamente compromissado com o fim da corrupção.

Mas porque todo este volume de dinheiro nas mãos do estado? Será que não seria melhor desmanchar o estado, eliminando a fonte de enriquecimento destes corruptos e eliminar assim a corrupção?

Como dissemos, a constituição do estado brasileiro, assim como a da maioria dos estados tem como função principal justamente tentar inverter este jogo. A arrecadação de impostos que acaba em boa parte sendo revertida para financiar a corrupção, existe justamente para tentar eliminar os frutos da corrupção do passado, que se traduz nas injustiças do presente. Por exemplo, as faculdades públicas deveriam ser destinadas a quem não pode pagar, financiamentos de bancos públicos deveriam se concentrar nos pequenos empresários e consumidores que não possuem crédito, saúde pública e educação básica publicas deveriam garantir tranquilidade e oportunidades iguais a todos, ajudando a reverter séculos de corrupção política e concentração de renda. Uma das funções primordiais do estado é justamente nivelar o jogo, criando uma igualdade de condições e oportunidades para todos. Assim, um dos principais motivos da existência da corrupção na política é justamente impossibilitar esta função básica do estado e manter em funcionamento os velhos esquemas, a corrupção na política tem como um dos seus alvos principais o ataque às políticas que promovem a igualdade de condições, que possibilitaria a emancipação de milhões de pessoas que se encontram em situação de pobreza/miséria, e que uma vez que alcançassem a classe média se tornariam uma força política muito difícil de se controlar. Em todo o mundo, povos que se emancipam da pobreza costumam exigir o fim de velhos privilégios, passam a exigir maior participação democrática e se tornam uma grande ameaça às velhas elites corruptas. Assim, o desmanche das políticas do estado ao invés de ser uma passo na direção do fim da corrupção, na verdade é a ferramenta ideal para manter intactas as velhas estruturas, conservando a desigualdade que é fruto da corrupção política do passado.

Tanto a corrupção política como a corrupção do dia a dia são fruto das mesmas falhas de caráter, e o cristão que deseja se tornar uma pessoa melhor precisa aprender a depurar o seu caráter evitando cometer os pequenos atos de “esperteza” do dia a dia. Mas tão importante quanto não ser conivente com qualquer ato imoral/ilegal, precisamos aprender a não aceitar a continuidade das injustiças históricas, como os salários menores pagos às mulheres, a falta de oportunidades aos herdeiros da escravidão, precisamos aprender a não nos beneficiarmos do desespero do trabalhador pobre que passando fome aceita trabalhar por um salário que lhe garantirá o pão de hoje mas garante a saída da miséria, podemos quem sabe aprender a não nos beneficiarmos do sistema já consagrado de exclusão do ensino superior público, que banca quase que exclusivamente os estudos de alunos que tem condições de pagar e deixa de fora os que não podem. Todas estas injustiças, das quais podemos fingir não termos parte, são fruto de séculos de corrupção, mas não dá para fingirmos combater a corrupção sem que estejamos realmente compromissados em combater o fruto desta corrupção histórica, que é a desigualdade, lembrando que o homem de bem, segundo Allan Kardec, “toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça”.

Trecho do livro Cristo e o Dinheiro

Quadro-negro

 

Cada discípulo terá sua hora do aproveitamento individual

“(…) Todos nós atravessamos o período da fome de informações acerca de Cristo, mas aderindo às interpretações do ensinamento cristão a que nos ajustamos, não raro, nos confiamos apaixonadamente às manifestações superficiais de nossa fé.” – Emmanuel. ¹

Participamos de assembleias em templos materiais os mais diferentes, dependendo da nossa crença, e isso, sem dúvida, torna digno nosso pensamento religioso; também integramos grupos que cuidam de propagar as ideias com as quais concordamos, e isso mostra o nosso cuidado com os princípios que nos propomos seguir; procuramos mostrar, através de hábitos exteriores, às vezes em assuntos de alimentação, por exemplo, o jejum de algum alimento, e de rituais em ocasiões especiais, o nosso propósito de testemunhar publicamente a nossa forma de pensar, o que reforça nossa sinceridade. E ainda, muitas vezes, procuramos demonstrar, de outras maneiras, as nossas escolhas religiosas… Tudo isso – como manifestações externas que lembram o nome de Jesus e se reportem, de alguma forma, às lições benditas que nos deixou – é recurso precioso, transformado em sugestão edificante para nosso caminho evolutivo.

O Apóstolo Paulo, em carta ao povo de Roma, lembra-nos que “se alguém não tem o Cristo, esse tal não é d`Ele”. É preciso reconhecer, então, que a palavra do Evangelho é demasiado clara ao proclamar a necessidade do Cristo em nossa vida, através de sentimentos, de ideias, de ações e de condutas condizentes com a Sua doutrina.

E por que nos lembrarmos das palavras de Paulo de Tarso? Quantas vezes pregamos o Evangelho, atendendo a interesses demagógicos! Quantas vezes queremos o Cristo para que o Cristo nos sirva! Quantas vezes cultivamos a oração, pretendendo subornar a Justiça Divina!

Essas atitudes de “demonstração e expressão de fé, à caça de vantagens pessoais, no imediatismo das gratificações terrenas”² têm nos levado ao renascimento físico, retornando inúmeras vezes à matéria, trazendo a consciência pesada de culpas, como um lugar repleto de lixo e sucata de existências anteriores, impedindo de nos abrirmos para o Sol da vida, para a Bondade Divina, para Deus, Pai Criador.

Para meditarmos e nos ocuparmos dos convites que Jesus nos faz, com vistas à renovação, é imprescindível conhecer os princípios evangélicos. Porém, mais que isso, é fundamental que exemplifiquemos com boas obras, independentemente das doutrinas que aceitemos, a fim de que sejamos cartas vivas do Evangelho, nas palavras do Apóstolo Paulo de Tarso, do aproveitamento pessoal do qual somos manifestos.

Com muita propriedade, Emmanuel, estimado benfeitor espiritual, diz o seguinte: “Quanto nos seja possível, estudemos as lições do Senhor e reflitamos em torno delas. Aprendamos, no entanto, a praticá-las, traduzindo-as em ação, no cotidiano, para que a palavra não se faça vazia e a fé não seja v㔳.

Tudo isso é o chamamento aos testemunhos que teremos de dar no momento aprazado. “Cada discípulo terá sua hora de revelação do aproveitamento individual.”³

É como se tivéssemos, ainda, em uma sala de aula, diante do quadro-negro, sendo inquirido pelo professor. Ali, naquele momento, teremos que mostrar a ele o quanto aprendemos com suas lições. Ali, nenhum dos companheiros da sala poderá nos ajudar… Diante do quadro-negro, zona escura para nossos olhos materiais, o giz representará, fielmente, a nossa posição firme no aprendizado ou nossa insegurança, no exemplo de Emmanuel. O nobre mentor traz para nós, ainda, uma imagem bastante sugestiva ao afirmar que muitos aprendizes fracassam porque não sabem multiplicar os bens dos quais se fizeram depositários, e nem dividi-los.

Ignoram como encontrar a luz, no meio das trevas e acabam somando os conflitos que resultam em revides, rancores, mágoas, doenças físicas de todas as espécies.

Esquecidos de que Jesus salientou o amor por máxima em todas as situações do Seu apostolado, entregam-se à devolução das injúrias, na mesma moeda, alimentados pelos melindres, pelas mágoas, desprezando o entendimento, o perdão e a serenidade.

Naturalmente, Jesus não se alegra de ver os homens mergulhados em sofrimento, mas também sabe da necessidade das provas e dos obstáculos para o crescimento desejado.

Se na escola os alunos são submetidos a provas de aproveitamento, capacitação, de testes de inteligência, também o Evangelho oferece situações semelhantes. Por exemplo:

1 – Sabemos que vivemos em um planeta bastante materializado, com corpos ainda grosseiros, o que acarreta, sempre, inúmeras dificuldades para nós.

2 – Problemas esses que são inerentes à própria existência, e por isso não podemos nos tornar criaturas tristes, desanimadas, sombrias, como quem está sempre à espera de padecimentos, fixados na ideia de que quanto mais sofrimento, mais chances de ir para o Céu.

3 – O planeta está repleto de tentações fantasiosas, necessidades ilusórias e não podemos chamar Jesus para que nos ajude a continuar a viver de ilusões.

Mas, quando somos chamados para seguir o Mestre, é para que aprendamos a executar a tarefa em favor da Esfera Maior, sem nos esquecermos de que o serviço começa em nós mesmos através da transformação dos nossos sentimentos, pensamentos, palavras e ações, na busca de sermos melhores hoje do que fomos ontem.

Lembra-nos, judiciosamente, Emmanuel que “quando o Mestre convida alguém ao Seu trabalho, não é porque chore em desalento ou repouse em satisfação ociosa. Se o Senhor te chamar, não te esqueças de que já te considera digno de testemunhar”.

Portanto, fugir ao convite, é comprometer ainda mais a presente encarnação, com acréscimos de débitos para as vindouras.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, “Bem-Aventurados os Aflitos”, encontramos o seguinte pensamento: “O fardo é proporcional às forças, como a recompensa será proporcional à resignação e à coragem”.

A atitude de fuga ante os compromissos assumidos ainda na espiritualidade antes de reencarnarmos, e apesar do esquecimento temporário, na matéria, só tornará mais penosas nossas existências: atual e futuras.

Apesar das provas às vezes ásperas, dos obstáculos aparentemente intransponíveis, que nos obrigam a pensar no porquê de suas presenças em nossa existência, Deus precisa nos encontrar executando as tarefas que nos competem, para poder nos ajudar na hora do testemunho. Poderemos ser ou estar limitados nesse momento, mas não poderemos ser ou estar ociosos física e intelectualmente. Agora, se permanecermos atentos, agradecendo a Deus as oportunidades oferecidas, Seus Mensageiros encontrarão, na própria tarefa, os meios de nos socorrer.

Quando conscientes e não mais iludidos pensamos na nossa realidade íntima e na que nos cerca a existência, damo-nos conta da sua rudeza. Todavia, Deus é Misericórdia Infinita e não nos deixa sem Seu amparo, ainda que muitas vezes nos sintamos abandonados.

Nossa fé vacilante não nos permite entender que o não aos nossos desejos e caprichos é a forma que o Pai tem de nos dizer: “Pare, pense, escolha melhor…”

As provas que experimentamos hoje é o resultado das escolhas enganosas de ontem. Hoje, mais sábios, já aprendemos escolher com mais responsabilidade. E o que isto significa? Significa que nosso futuro desenha-se radioso à nossa frente. Cada vez mais rapidamente e com mais coragem vamos vencendo todos os obstáculos, e nos preparando para o cimo da felicidade; felicidade que tanto desejamos, e que nos chegará por méritos próprios.

As provações espinhosas vão ficando para trás na medida em que, mais lúcidos das nossas obrigações ante as leis divinas, vamos cumprindo, dentro de nós, com alegria, as palavras do Excelso Amigo, Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ama teu próximo como a ti mesmo”, não importa onde, não importa quando, não importa quem.

Bibliografia:

1 – XAVIER, F. C. – Palavras de Vida Eterna – ditado pelo Espírito Emmanuel – 20ª edição, Edição CEC, Uberaba/MG – 1995 – lição 160.

2 – idem – lição 159.

3 – XAVIER, F. C. – Vinha de Luz – ditado pelo Espírito Emmanuel – 14ª ed., FEB, Rio de Janeiro/RJ – 1996 – lição 114.

4 – XAVIER, F. C. – Caminho, Verdade e Vida – ditado pelo Espírito Emmanuel – 17ª ed., FEB, Rio de Janeiro/RJ – 1997, lição 71.

Leda Maria Flaborea

 

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