Virtudes e Defeitos

 

Do latim virtus, utis, que significa força corpórea, ânimo, valor, bravura, coragem, força de alma, energia, boas qualidades morais, mérito, vejamos outras definições para a palavra virtude:

a. Minidicionário Aurélio: “disposição firme para a prática do bem; qualidade moral”.

b. Houaiss: “qualidade do que se conforma com o considerado correto e desejável; conformidade com o Bem, com a excelência moral ou de conduta”.

c. Aristóteles: disposição adquirida de fazer o bem, que se aperfeiçoa com o hábito.

d. O Livro dos Espíritos – p. 893: “Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento das más tendências”.

e. Miramez em Horizontes da Vida: “Virtudes são qualidades morais que a alma deve exercitar a cada dia em proveito de sua própria vida”.

Conclusão: virtudes são qualidades morais do homem, a serem despertadas, desenvolvidas, cultivadas, exercitadas. Mas por quê?

Deus criou tudo o que existe: o universo, a natureza, a humanidade. Deus, que é o Bem e a Perfeição absolutos, não criaria nada incompleto, imperfeito ou defeituoso. Então, tudo o que Deus criou foi criado para o Bem, inclusive a humanidade.

Isso significa que o ser humano, de natureza divina, foi criado potencialmente bom, virtuoso, ou seja, todos os homens têm latentes, em si mesmo, todas as virtudes necessárias ao seu progresso espiritual, à sua verdadeira felicidade.

Portanto, desenvolver virtudes é, na verdade, desenvolver nossa própria natureza, evoluir espiritualmente, para alcançar a felicidade que tanto buscamos, mesmo sem o sabermos. Assim, o desenvolvimento das virtudes é uma necessidade instintiva natural de todo ser humano. Mesmo inconscientemente, o homem deseja ser virtuoso, busca o cultivo das virtudes por instinto.

Mas, se é assim tão natural, por que é sempre tão difícil despertar, cultivar, desenvolver, exercitar as virtudes? Será que somos fracos? Estamos sem a proteção de Deus? Somos incapazes?

Não. Deus nada criou para a imperfeição, portanto, temos tudo para sermos perfeitos. Acontece que, durante muito tempo, por uma questão de sobrevivência, o homem foi obrigado a se preocupar mais com o mundo material e as necessidades físicas, e sua atenção esteve completamente voltada para a busca de alimento, abrigo, defesa, moradia, etc. Não sobrava tempo e espaço para que percebesse e se preocupasse com as coisas espirituais, pois as coisas materiais tomavam todo seu tempo e suas energias.

Isso foi necessário durante algum tempo, como parte do aprendizado do homem no planeta. Era necessário que ele conhecesse as emoções básicas antes pelo ponto de vista material, concreto, palpável, para depois abstrair-se e entendê-las pelo ponto de vista intelectual, filosófico e espiritual, conhecendo também os sentimentos mais elevados. Era apenas mais um estágio a ser vencido em sua caminhada evolutiva.

Nessa intensa luta pela sobrevivência, as virtudes acabaram confundidas com coisas do mundo material, mais objetivas e práticas como força e resistência físicas, coragem para a luta corporal, capacidade para estratégias de guerra, fertilidade, harmonia estética, etc. E, com as virtudes moldadas pela visão exclusivamente material, o homem acabou criando um mundo de luta, competição e disputa, onde o que valia era a lei do mais forte, do olho por olho, do jogo de poder e acúmulo de bens.

Com o tempo, entretanto, seu entendimento aumenta e ele alcança uma percepção instintiva das coisas espirituais. É sua natureza latente para o em chamando mais forte. E o homem passa a não se satisfazer mais só com as coisas materiais. E essa insatisfação começa a gerar vazio, culpa, arrependimento, desconforto, constrangimento de consciência, incômodo, pois o homem começa a perceber que lhe falta alguma coisa e que, talvez, ele tenha “defeitos”.

Começa, então, a luta interior do homem contra si mesmo, a luta moral, o conflito consciencial do homem velho contra o homem novo, de que fala Paulo de Tarso em suas epístolas e de que falam muitos outros místicos e filósofos ao longo da história. Essa é a batalha mais árdua de todo ser humano, sem tréguas, sem disfarces, 24 h por dia, sem possibilidade de fuga, pois, mais cedo ou mais tarde, somos forçados a nos olhar frente a frente.

É nesse ponto que surgem a Religião e a Filosofia, como forma de encontrar alívio para o mal-estar interior e para o conflito que se instalou em nossa consciência. Em todas as Religiões vamos encontrar referências às virtudes. Todas as Religiões reconhecem o valor e a necessidade de se cultivar virtudes como qualidades das pessoas de bem, como qualidades a serem cultivadas para se tornar pessoas de bem.

Acontece que as Religiões, manifestações humanas, nunca foram perfeitas e, influenciadas pelas culturas e pela época em que estão inseridas, acabaram por dar às virtudes definições particulares, distorcidas, exagerando algumas características, tornando-as inacessíveis, difíceis de serem compreendidas ou vivenciadas pelas pessoas comuns, transformando-as em coisas para santos, místicos, anjos, iluminados, avatares, iniciados, missionários, etc.

Assim, as Religiões falham e não conseguem explicar e sanar o conflito vivido pelo homem, aliviando o desconforto espiritual em que vive. Sem poder alcançá-las, esse homem perde o interesse pelas virtudes e volta ao seu estado materialista. E instituiçõs religiosas, por sua vez, erguidas e cheias de homens também em conflito tanto quanto o povo, receosas de perder o controle sobre seus fiéis, criam mecanismos e leis que só fazem aumentar a culpa, o medo e o constrangimento da consciência humana.

Desse modo, as virtudes, além de não serem compreendidas, ainda são desvalorizadas e praticamente esquecidas, consideradas utopias, coisas de gente ingênua, crédula e ignorante. Ser virtuoso se torna sinônimo de ser bobo e ignorante.

O homem, cansado de ir e vir, continua lutando consigo mesmo, intuindo que alguma coisa está errada, que falta algo, mas sem saber como corrigir. E é nesse estágio em que nos encontramos hoje. O homem moderno, pelo excesso de materialismo e pela decepção com as Religiões, perdeu a referência divina de sua criação e, ao mesmo tempo, não se contenta com a referência mais animalizada e limitada de seu passado. Ele não quer voltar a ser o que foi, e não consegue enxergar ou entender o que pode vir a ser. Com a falta de compreensão de sua natureza divina e as distorções criadas com o passar dos séculos, o homem continua a agir de forma equivocada, manifestando qualidades que se parecem cada vez mais defeitos para ele.

O que são, então, os defeitos?

O que são, então, os defeitos? Defeitos nada mais são que manifestações da nossa ignorância em relação à nossa natureza divina; são agressões a essa natureza virtuosa latente com que fomos criados desde o princípio; são agressões à nossa consciência e ao fluxo do amor divino que está em nós e nos transpassa ao longo da vida. Uma vez que entendemos as virtudes como parte de nossa natureza, aspectos naturais de nosso caráter, potenciais divinos latentes em todos nós para nosso sucesso espiritual, entendemos que o único caminho natural para nossa felicidade é a prática constnte e consciente dessas virtudes, cessando o conflito íntimo, o desconforto, a insatisfação.

A única e verdadeira função da virtude é fortalecer o espírito para a caminhada em direção ao progresso espiritual, reconduzindo-nos à posse de nossa natureza divina, libertando-nos de nosso passado limitado por distorções, ilusões e enganos.

Como diz Miramez em Horizontes da Vida, “a criatura virtuosa assegura força poderosa na sua vida, que lhe faz alcançar um bem estar indizível, na intimidade do coração. […] A função da virtude é a de libertar as criaturas dos cansados trilhos das ilusões e do enfado torturante das paixões inferiores”.

Assim, a nossa atitude natural deve ser cultivar virtudes e não combater defeitos. Cultivando virtudes, os defeitos, naturalmente, deixam de existir, de forma gradativa, pois não são parte de nós. São apenas manifestações de nossa ignorância em relação a nossa natureza; reflexo de nossa agressão a nossas características latentes naturais: as virtudes. Essas, sim, partes de nossa essência.

É importante, no entanto, que essa prática das virtudes não se torne uma obsessão, pois poderia levar a outro equívoco grave: o fanatismo. A busca das virtudes deve ser natural, gradativa, sem sofrimento, sem sacrifícios, sem privações, repressões ou imposições cruéis. O que não quer dizer que não implique algum sacrifício de nossa parte. Para conquistarmos as virtudes, teremos de abrir mão de alguns interesses pessoais, de alguns apegos materiais, de algumas crenças arraigadas, de alguns conceitos equivocados, de algumas percepções distorcidas ou egoístas… Mas tudo de forma natural, sem que seja necessário forçar nada, sem que nos tornemos chatos, implicantes, fiscais ou cobradores de nós mesmos ou de quem quer que seja.

Também não devemos, na ânsia de alcançar as virtudes, virar as costas aos defeitos. Para podermos evitar um perigo, precisamos saber exatamente como é esse perigo, onde ele está, como se comporta, quando se manifesta etc… Devemos procurar conhecer todos os nossos defeitos para melhor empreender a busca das virtudes contrárias a eles, e não bancar os cegos e ingênuos, fingindo não ver o perigo em que nos encontramos ou o quanto ainda estamos sujeitos a fraquejar.

E, principalmente, aceitemos os nossos eventuais defeitos com naturalidade, sem decepção, sem desânimo, pois eles são características naturais do estágio em que nos encontramos agora. Precisamos manifestar esses defeitos para nos conhecermos melhor e para sabermos quais são nossas maiores necessidades. Somente através de nossos defeitos, percebidos de forma consciente ou inconsciente, pudemos chegar ao momento em que nos encontramos hoje, aqui e agora, fazendo questionamento em busca de esclarecimento, orientação e aperfeiçoamento de nós mesmos.

Fonte: STUM – Somos Todos Um – por Maísa Intelisano

 

Haja paciência…

 

Num dia desses, parado com o carro esperando abrir o sinal, fiquei distraído e não percebi que a cor havia mudado para verde. Foi questão de uns 5 segundos, mas o suficiente para fazer com que o motorista de trás apertasse sua buzina freneticamente. Calmamente engatei primeira e saí com o carro. Ao passar por mim, fez um sinal indecoroso, e pude ler em seus lábios uma nada amistosa homenagem à minha progenitora que, certamente, ele não conheceu, pois desencarnou há mais de 15 anos.
Mas o fato colocou-me a pensar em como estamos sempre com pressa, talvez no contrafluxo do universo. Estamos contra o fluxo do universo porque toda a mensagem que nos é enviada pede para termos mais calma ou, melhor dizendo, para treinarmos a paciência.
Quem quer tudo para ontem ainda não percebeu que a vida tem seu próprio tempo e turno.1 Esperar é uma tônica da vida na Terra. Mesmo que não queira, ninguém pode viver sem esperar. Um amigo, admoestado porque com frequência fazia seu chefe esperar, não perdia a piada. Ele pode esperar, aliás, esperou 9 meses para nascer, não há problema algum em esperar mais 5 minutos para ter um relatório de qualidade, com informações preciosas que pouparão muito de seu tempo, dizia o ousado amigo. A verdade é que, quanto mais um indivíduo se tem em alta conta, menos ele gosta de esperar. Ah, as noivas não entram nessa análise, elas podem ter pressa e fazer os outros esperarem.
Mas só as noivas…
Por essas e outras, penso que um desafio coletivo para quem vive na Terra é o de esperar. Isso mesmo. Esperamos 9 meses para nascer, mais alguns anos para falar, mais um tempo para andar… Esperamos no trânsito, nas filas, esperamos para aposentar, esperamos chegar a Olimpíada e a Copa do Mundo, esperamos as férias e as sextas-feiras, esperamos o amigo, esperamos o exame chegar, a conexão da net, esperamos alguém ligar e, pasmem, esperamos até a felicidade.
Isso sem contar que até quem paga a conta espera o médico chegar, já quem depende do SUS… Bem, quem depende do SUS nem sabe se o médico chegará…
Aliás, paciência para esperar que a dor passe ou a fase difícil vá embora já é, por si, um remédio que alivia. Sim, um remédio. Quanto mais nos desesperamos, mais as dores, sejam elas de ordem moral ou física, tornam-se fortes. A paciência é o remédio que permite diminuir a potência da dor. Há, aliás, bela mensagem em O Evangelho segundo o Espiritismo que traz o nome de Paciência. A mensagem diz, entre tantas coisas bacanas, que, quando olhamos para baixo, verificamos que outras tantas pessoas sofrem dores mais agudas do que as nossas. Ou seja, é preciso treinar a paciência e aprender a esperar, pois tudo, absolutamente tudo, passa, e, quando temos mais resignação, as dores não se tornam insuportáveis.
O trânsito é mais leve, o médico chega mais rápido, os exames não demoram tanto, a conexão da net funciona de forma mais eficaz quando exercitamos a paciência.
Então, de tudo que abordamos, cabe-nos entender que é importante conquistar a paciência, e que a vida nos treina para isso constantemente.
Nem sempre o tempo que julgamos certo o é para Deus, eis por que ele dotou a vida repleta de situações que nos ensinam um belo aprendizado: aprender a esperar, enfim, buscar a paciência para que a vida seja mais leve, menos estressante.
Até porque não existe vida sem espera…
E haja paciência…

Wellington Balbo

Novas enfermidades, vícios antigos…

 

Atualmente vive-se o surgimento de novas doenças em uma velocidade espantosa. Zika vírus, chikungunya e outros males preocupam a sociedade. Alguns estudos apontam que o Zika vírus tem relação com a microcefalia, o que deixa muitos pais atônitos com a possibilidade de que seus rebentos venham nascer portadores do mal acima citado.
Recentemente um colega, grávido de trigêmeos, lotou as prateleiras de sua casa com repelentes para evitar que a esposa corresse o perigo de ser picada pelo mosquito aedes aegypt, transmissor do Zika. Pernas pra que te quero e repelente no corpo, disse ele. Fato é que as novidades, sejam em qualquer campo, causam curiosidade e, a priori, assustam, principalmente as novidades que dizem respeito à saúde do corpo, algo que todos prezam tanto.
Estima-se que o ser humano acumula atualmente um novo elemento patogênico por ano. E muitos fatores colaboram para isso. O homem mudou seu estilo de vida, hoje interage muito mais com os animais em seus ambientes, além das viagens internacionais, a globalização e, também, a criação de animais exóticos, tudo isso e mais outros fatores geram condições para que se desenvolvam novos elementos patogênicos.
Novas doenças, chance de o homem exercitar sua inteligência – Cada nova doença representa para o homem de ciência desafio ao seu intelecto e oportunidade de progresso, pois deve ele – o homem de ciência – entregar-se de corpo e alma ao estudo e pesquisa para oferecer à sociedade uma resposta. E essa entrega o leva a novas descobertas, ou ao menos abre caminho para que outros desbravem os horizontes da cura para os males do corpo.
Portanto, o trabalho duro em torno da cura de uma determinada doença afia a inteligência daqueles que se debruçam em estudá-la e os leva ao progresso. Como evoluiria o homem sem os desafios naturais que o convidam a pular sempre mais alto? É nas aparentes adversidades que Deus vai dando oportunidade para o crescimento de seus filhos.
Quando o tempo passa e olhamos para trás constatamos as conquistas advindas daquele embate contra esta ou aquela patologia e entendemos o salto que foi dado pelo ser humano a mostrar que mais uma etapa foi vencida.
Enfermidade educativa – Segundo o Espiritismo a Terra pertence à categoria de mundos de provas e expiações. Habitantes de planetas deste nível já tiveram algum progresso, basta observar os avanços, principalmente nas questões pertinentes à ciência e tecnologia, entretanto, o comportamento moral ainda atrasado demonstra uma inferioridade que deve, naturalmente, ser vencida.
Uma das formas de vencer a inferioridade moral, claro que não a única, é a provação por meio da enfermidade. A enfermidade não raro atua como um freio e, também, como um meio para educar o indivíduo.
Um fumante inveterado recebe o alerta médico de que é preciso parar com o vício, entretanto, faz ouvidos moucos. Então, pela lei de causa e efeito colhe um problema em seus pulmões; problema este que o educará mostrando que é necessário domar aquela inclinação ao tabaco. Seja este homem um teimoso e prossiga com seu vício, os apertos orgânicos serão ainda maiores a imputar-lhe dores e sofrimento, não com o objetivo de puni-lo, mas com o único intuito de fazê-lo compreender que o corpo físico é sagrado templo do Espírito imortal para suas vivências terrenas, logo, não pode ser massacrado pelo fumo.
Este homem lesará seu corpo espiritual e, por consequência da lesão no perispírito, seu corpo físico, em posterior existência (quando não na mesma), apresentará alguns problemas decorrentes de seu vício de outrora. Aprenderá, por meio dos dissabores que orientam, a tratar-se com o devido respeito.
Perceba, porém, que este é apenas um dos infinitos exemplos que podem ser citados para a ilustração de como a enfermidade tem o caráter de educar, mas não o de punir.
Entretanto, para crescer pela dor e pelas enfermidades não basta apenas estar portador delas, algo mais se faz necessário. É preciso ter resignação e aceitar a condição temporária do estar portador desta ou daquela doença. Eis a grande questão. A condição de enfermo é apenas temporária, jamais definitiva. Não somos Zika, estamos com Zika, não somos HIV positivo, estamos com HIV positivo. Tudo passa, e com as enfermidades não é diferente.
Jesus disse: A verdade liberta. Pois sim, conhecendo a verdade, ou seja, que estamos num mundo de provas e expiações, saberemos que as aflições virão, mas é possível vencê-las.
Em O livro dos Espíritos Allan Kardec indaga aos mentores se podemos vencer as provações da existência. A resposta é clara. Dizem os sábios espirituais que podemos vencer qualquer desafio, mas é imperioso o esforço. E informam que poucos se empenham para vencer os desafios. Uma mensagem repleta de otimismo a dizer-nos:
Vão em frente, cresçam, prossigam, depende de vocês!
E nascemos para vencer e não para perder.
E as indagações, como não poderiam deixar de ser, na busca pela verdade, sucedem-se: Por que o homem está submetido a antigas e novas formas de doença? Por que alguns adoecem com mais facilidade do que outros?
Perguntas interessantes, mas que só terão resposta satisfatória quando analisadas sob o prisma da imortalidade da alma.
Submetido está a antigas e novas doenças porque vive num mundo de provas e expiações, em que por conta de seu pouco desenvolvimento moral ainda encontra-se subordinado a aprendizados, digamos, dolorosos.
Melhore o homem moralmente e suas existências ficarão mais leves, sem a pesada e densa equação da dor para resolver.
Quando o foco está apenas na existência atual, de fato as novas patologias chocam, pois demonstram estar reinando num mundo onde Deus deveria existir e, portanto, fazer-se soberano, haja vista seus atributos.
Mas quando mudamos o foco e enxergamos a imortalidade da alma e as existências sucessivas, a coisa muda de figura, e tudo faz sentido porque tem uma explicação palatável.
Basta, como ensinam os Espíritos, o homem fazer uma reflexão profunda das razões pelas quais determinada patologia o visita. Se ele for sincero e não encontrar razões nesta existência, fatalmente a causa estará no passado.
E se hoje ele passa por isso é porque Deus sabe que tem condições de resgatar esse débito e sair vencedor de sua jornada.
Oportunidade de exercitar o amor – Um outro ponto interessante a anotar é o de que as enfermidades, sejam elas novas ou antigas, servem para despertar no homem o amor pelo seu semelhante. Ao praticar a lei de amor e caridade o ser humano faz de tudo para suavizar as dores do próximo, não caminhando por ele, mas socorrendo-o diante da dolorosa provação da enfermidade física.
São os casos das famílias saudáveis fisicamente, mas que recebem em seu seio um indivíduo com graves problemas de saúde. Quando situações assim ocorrem vale lembrar que a prova é para toda a família e não apenas para um único indivíduo.
Ensinam os Espíritos que numa sociedade que pratica a lei de amor o forte ampara o fraco, portanto, o familiar com saúde debilitada é no momento alguém que se encontra fragilizado a requerer nossa atenção e cuidados.
Recordo-me de uma família composta por 3 filhos, marido e esposa, total de 5 pessoas. A mãe com os meninos ainda adolescentes teve trombose cerebral e ficou inválida na cama. Os papéis se inverteram, ao invés dela cuidar dos filhos, os filhos tiveram de, ainda jovens, abraçar a tarefa. Complicado, é verdade. Mas, não obstante suas limitações, todos encararam o dever e o cumpriram com zelo. Mais interessante: não viam a mãe como um fardo, mas, sim, como alguém necessitando ainda mais de amor.
O que está por trás disso?
Não sabemos no momento, contudo, é fato que o impossível é Deus errar, logo, há alguma causa razoável para esta provação e que neste instante escapa-nos a ciência.
A provação teve pouco mais de 27 anos de duração. Após o desencarne da mãe todos se sentiram liberados para tocarem suas vidas de maneira, digamos, um pouco mais livre.
A realidade é que tudo passa nesta vida e cabe-nos enfrentar toda e qualquer situação com coragem e certeza de que Deus não nos abandona jamais. Este, aliás, um grande alento saber que estamos sendo cuidados pela inteligência suprema. Não há nada mais competente do que isso.
Portanto, em face de qualquer enfermidade, seja nova ou antiga, utilizemos do exercício da serenidade, este bem tão precioso que nos proporcionará passar por qualquer desafio existencial de forma mais leve.
Sem serenidade não se atravessa a rua, com serenidade damos a volta ao mundo.
Pois é, caro leitor, novas doenças, porém os vícios são antigos, ainda são os mesmos…

Wellington Balbo

A diferença entre a corrupção política e a corrupção do dia a dia.

Em um vídeo que circula na internet o historiador Leandro Karnal explica que a corrupção não está só na política mas em todos os lugares, no uso indevido da vaga de deficiente, no recibo falso usado na declaração do imposto de renda, no favor de quem pede para “tirar” uma multa de transito, e explica que esta corrupção se repete até os altos escalões do governo.

Mas existem grandes diferenças nas consequências destes dois tipos de corrupção. Por exemplo, imaginemos um engenheiro que possua uma renda de $10 mil por mês more em um condomínio pagando uma taxa de condomínio de $400, da qual são desviados $100 por um esquema fraudulento do síndico. Isto significa que este engenheiro terá 1% de sua renda de $10 mil desviada indevidamente para o bolso do corrupto. Mas imaginando que este engenheiro seja uma pessoa normal, com um comportamento que não esteja muito acima da média em termos de honestidade, ele provavelmente irá praticar algum ato que lhe dê uma vantagem indevida de $100, por exemplo quando ele consegue um favor de alguém que anula uma multa por ter estacionado na vaga de deficiente. Repare que no final ficou tudo “elas por elas” ou conforme o ditado “se todo mundo levar vantagem em tudo, ninguém leva vantagem em nada”.

A corrupção política gera acumulação de riqueza em larga escala, algumas das construtoras envolvidas em escândalos recentes no Brasil acumularam nos últimos anos grandes fortunas, transformadas em monopólios legalizados na forma de rodovias, ferrovias, estaleiros etc. Os grandes empresários corruptos do passado são hoje gigantes que monopolizam “honestamente” setores importantes da economia como transportes, telecomunicações, agronegócio, indústria, redes de televisão e tudo o mais que se possa imaginar. A possibilidade de roubo em larga escala por uma parcela muito pequena da população gera enormes concentrações de poder e desigualdade social, diferentemente da corrupção do dia a dia que gera pequenos prejuízos e vantagens mútuas entre pessoas comuns.

Ao contrário dos pequenos atos de desonestidade do dia a dia, os grandes empresários corruptores e seus políticos corrompidos possuem o poder de moldar a sociedade em uma estrutura extremamente desigual. Por exemplo, há séculos atrás os traficantes de escravos conseguiram a aprovação da igreja para legalizar o seu negócio, distorcendo mais uma vez as leis da igreja cristã que  governava a sociedade da época, resultando em uma desigualdade que não conseguimos superar até hoje. Esta e outras tantas grandes injustiças do passado criaram a sociedade brasileira, uma das mais desiguais do mundo. Mas uma vez estabelecida esta desigualdade social, os poderosos passam a corromper os governos para que impeçam a reversão do sistema, mesmo que as leis futuras como as da nossa constituição de 1988 atendam justamente o desejo da população de ver revertidas as injustiças hereditárias, a corrupção da classe política opera justamente para impedir este processo, ao corrupção política opera constantemente para impedir a execução do que está estipulado nas chamadas leis progressistas.

Como cristãos buscamos sempre nos tornarmos pessoas melhores e queremos também ver a sociedade reformada com a fim da corrupção política, mas para isso precisamos aprender a nos interessar mais pelos resultados das nossas escolhas políticas. Ao invés do nosso comportamento de costume que consiste em adotar um “time” e torcer por ele, elegendo de pronto os nossos heróis e vilões e torcendo para a derrota do outro lado, precisamos aprender a escolher políticos realmente compromissados com o combate à corrupção. Um bom ponto de início para esta difícil escolha seria se recusar a votar em qualquer político que tenha sido beneficiado com doações de empresários envolvidos em esquemas de corrupção, seja de qual partido for, esteja ou não sendo denunciado ou investigado, podemos deduzir razoavelmente que o político que aceita este tipo de doação não pode estar seriamente compromissado com o fim da corrupção.

Mas porque todo este volume de dinheiro nas mãos do estado? Será que não seria melhor desmanchar o estado, eliminando a fonte de enriquecimento destes corruptos e eliminar assim a corrupção?

Como dissemos, a constituição do estado brasileiro, assim como a da maioria dos estados tem como função principal justamente tentar inverter este jogo. A arrecadação de impostos que acaba em boa parte sendo revertida para financiar a corrupção, existe justamente para tentar eliminar os frutos da corrupção do passado, que se traduz nas injustiças do presente. Por exemplo, as faculdades públicas deveriam ser destinadas a quem não pode pagar, financiamentos de bancos públicos deveriam se concentrar nos pequenos empresários e consumidores que não possuem crédito, saúde pública e educação básica publicas deveriam garantir tranquilidade e oportunidades iguais a todos, ajudando a reverter séculos de corrupção política e concentração de renda. Uma das funções primordiais do estado é justamente nivelar o jogo, criando uma igualdade de condições e oportunidades para todos. Assim, um dos principais motivos da existência da corrupção na política é justamente impossibilitar esta função básica do estado e manter em funcionamento os velhos esquemas, a corrupção na política tem como um dos seus alvos principais o ataque às políticas que promovem a igualdade de condições, que possibilitaria a emancipação de milhões de pessoas que se encontram em situação de pobreza/miséria, e que uma vez que alcançassem a classe média se tornariam uma força política muito difícil de se controlar. Em todo o mundo, povos que se emancipam da pobreza costumam exigir o fim de velhos privilégios, passam a exigir maior participação democrática e se tornam uma grande ameaça às velhas elites corruptas. Assim, o desmanche das políticas do estado ao invés de ser uma passo na direção do fim da corrupção, na verdade é a ferramenta ideal para manter intactas as velhas estruturas, conservando a desigualdade que é fruto da corrupção política do passado.

Tanto a corrupção política como a corrupção do dia a dia são fruto das mesmas falhas de caráter, e o cristão que deseja se tornar uma pessoa melhor precisa aprender a depurar o seu caráter evitando cometer os pequenos atos de “esperteza” do dia a dia. Mas tão importante quanto não ser conivente com qualquer ato imoral/ilegal, precisamos aprender a não aceitar a continuidade das injustiças históricas, como os salários menores pagos às mulheres, a falta de oportunidades aos herdeiros da escravidão, precisamos aprender a não nos beneficiarmos do desespero do trabalhador pobre que passando fome aceita trabalhar por um salário que lhe garantirá o pão de hoje mas garante a saída da miséria, podemos quem sabe aprender a não nos beneficiarmos do sistema já consagrado de exclusão do ensino superior público, que banca quase que exclusivamente os estudos de alunos que tem condições de pagar e deixa de fora os que não podem. Todas estas injustiças, das quais podemos fingir não termos parte, são fruto de séculos de corrupção, mas não dá para fingirmos combater a corrupção sem que estejamos realmente compromissados em combater o fruto desta corrupção histórica, que é a desigualdade, lembrando que o homem de bem, segundo Allan Kardec, “toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça”.

Trecho do livro Cristo e o Dinheiro

Quadro-negro

 

Cada discípulo terá sua hora do aproveitamento individual

“(…) Todos nós atravessamos o período da fome de informações acerca de Cristo, mas aderindo às interpretações do ensinamento cristão a que nos ajustamos, não raro, nos confiamos apaixonadamente às manifestações superficiais de nossa fé.” – Emmanuel. ¹

Participamos de assembleias em templos materiais os mais diferentes, dependendo da nossa crença, e isso, sem dúvida, torna digno nosso pensamento religioso; também integramos grupos que cuidam de propagar as ideias com as quais concordamos, e isso mostra o nosso cuidado com os princípios que nos propomos seguir; procuramos mostrar, através de hábitos exteriores, às vezes em assuntos de alimentação, por exemplo, o jejum de algum alimento, e de rituais em ocasiões especiais, o nosso propósito de testemunhar publicamente a nossa forma de pensar, o que reforça nossa sinceridade. E ainda, muitas vezes, procuramos demonstrar, de outras maneiras, as nossas escolhas religiosas… Tudo isso – como manifestações externas que lembram o nome de Jesus e se reportem, de alguma forma, às lições benditas que nos deixou – é recurso precioso, transformado em sugestão edificante para nosso caminho evolutivo.

O Apóstolo Paulo, em carta ao povo de Roma, lembra-nos que “se alguém não tem o Cristo, esse tal não é d`Ele”. É preciso reconhecer, então, que a palavra do Evangelho é demasiado clara ao proclamar a necessidade do Cristo em nossa vida, através de sentimentos, de ideias, de ações e de condutas condizentes com a Sua doutrina.

E por que nos lembrarmos das palavras de Paulo de Tarso? Quantas vezes pregamos o Evangelho, atendendo a interesses demagógicos! Quantas vezes queremos o Cristo para que o Cristo nos sirva! Quantas vezes cultivamos a oração, pretendendo subornar a Justiça Divina!

Essas atitudes de “demonstração e expressão de fé, à caça de vantagens pessoais, no imediatismo das gratificações terrenas”² têm nos levado ao renascimento físico, retornando inúmeras vezes à matéria, trazendo a consciência pesada de culpas, como um lugar repleto de lixo e sucata de existências anteriores, impedindo de nos abrirmos para o Sol da vida, para a Bondade Divina, para Deus, Pai Criador.

Para meditarmos e nos ocuparmos dos convites que Jesus nos faz, com vistas à renovação, é imprescindível conhecer os princípios evangélicos. Porém, mais que isso, é fundamental que exemplifiquemos com boas obras, independentemente das doutrinas que aceitemos, a fim de que sejamos cartas vivas do Evangelho, nas palavras do Apóstolo Paulo de Tarso, do aproveitamento pessoal do qual somos manifestos.

Com muita propriedade, Emmanuel, estimado benfeitor espiritual, diz o seguinte: “Quanto nos seja possível, estudemos as lições do Senhor e reflitamos em torno delas. Aprendamos, no entanto, a praticá-las, traduzindo-as em ação, no cotidiano, para que a palavra não se faça vazia e a fé não seja v㔳.

Tudo isso é o chamamento aos testemunhos que teremos de dar no momento aprazado. “Cada discípulo terá sua hora de revelação do aproveitamento individual.”³

É como se tivéssemos, ainda, em uma sala de aula, diante do quadro-negro, sendo inquirido pelo professor. Ali, naquele momento, teremos que mostrar a ele o quanto aprendemos com suas lições. Ali, nenhum dos companheiros da sala poderá nos ajudar… Diante do quadro-negro, zona escura para nossos olhos materiais, o giz representará, fielmente, a nossa posição firme no aprendizado ou nossa insegurança, no exemplo de Emmanuel. O nobre mentor traz para nós, ainda, uma imagem bastante sugestiva ao afirmar que muitos aprendizes fracassam porque não sabem multiplicar os bens dos quais se fizeram depositários, e nem dividi-los.

Ignoram como encontrar a luz, no meio das trevas e acabam somando os conflitos que resultam em revides, rancores, mágoas, doenças físicas de todas as espécies.

Esquecidos de que Jesus salientou o amor por máxima em todas as situações do Seu apostolado, entregam-se à devolução das injúrias, na mesma moeda, alimentados pelos melindres, pelas mágoas, desprezando o entendimento, o perdão e a serenidade.

Naturalmente, Jesus não se alegra de ver os homens mergulhados em sofrimento, mas também sabe da necessidade das provas e dos obstáculos para o crescimento desejado.

Se na escola os alunos são submetidos a provas de aproveitamento, capacitação, de testes de inteligência, também o Evangelho oferece situações semelhantes. Por exemplo:

1 – Sabemos que vivemos em um planeta bastante materializado, com corpos ainda grosseiros, o que acarreta, sempre, inúmeras dificuldades para nós.

2 – Problemas esses que são inerentes à própria existência, e por isso não podemos nos tornar criaturas tristes, desanimadas, sombrias, como quem está sempre à espera de padecimentos, fixados na ideia de que quanto mais sofrimento, mais chances de ir para o Céu.

3 – O planeta está repleto de tentações fantasiosas, necessidades ilusórias e não podemos chamar Jesus para que nos ajude a continuar a viver de ilusões.

Mas, quando somos chamados para seguir o Mestre, é para que aprendamos a executar a tarefa em favor da Esfera Maior, sem nos esquecermos de que o serviço começa em nós mesmos através da transformação dos nossos sentimentos, pensamentos, palavras e ações, na busca de sermos melhores hoje do que fomos ontem.

Lembra-nos, judiciosamente, Emmanuel que “quando o Mestre convida alguém ao Seu trabalho, não é porque chore em desalento ou repouse em satisfação ociosa. Se o Senhor te chamar, não te esqueças de que já te considera digno de testemunhar”.

Portanto, fugir ao convite, é comprometer ainda mais a presente encarnação, com acréscimos de débitos para as vindouras.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo V, “Bem-Aventurados os Aflitos”, encontramos o seguinte pensamento: “O fardo é proporcional às forças, como a recompensa será proporcional à resignação e à coragem”.

A atitude de fuga ante os compromissos assumidos ainda na espiritualidade antes de reencarnarmos, e apesar do esquecimento temporário, na matéria, só tornará mais penosas nossas existências: atual e futuras.

Apesar das provas às vezes ásperas, dos obstáculos aparentemente intransponíveis, que nos obrigam a pensar no porquê de suas presenças em nossa existência, Deus precisa nos encontrar executando as tarefas que nos competem, para poder nos ajudar na hora do testemunho. Poderemos ser ou estar limitados nesse momento, mas não poderemos ser ou estar ociosos física e intelectualmente. Agora, se permanecermos atentos, agradecendo a Deus as oportunidades oferecidas, Seus Mensageiros encontrarão, na própria tarefa, os meios de nos socorrer.

Quando conscientes e não mais iludidos pensamos na nossa realidade íntima e na que nos cerca a existência, damo-nos conta da sua rudeza. Todavia, Deus é Misericórdia Infinita e não nos deixa sem Seu amparo, ainda que muitas vezes nos sintamos abandonados.

Nossa fé vacilante não nos permite entender que o não aos nossos desejos e caprichos é a forma que o Pai tem de nos dizer: “Pare, pense, escolha melhor…”

As provas que experimentamos hoje é o resultado das escolhas enganosas de ontem. Hoje, mais sábios, já aprendemos escolher com mais responsabilidade. E o que isto significa? Significa que nosso futuro desenha-se radioso à nossa frente. Cada vez mais rapidamente e com mais coragem vamos vencendo todos os obstáculos, e nos preparando para o cimo da felicidade; felicidade que tanto desejamos, e que nos chegará por méritos próprios.

As provações espinhosas vão ficando para trás na medida em que, mais lúcidos das nossas obrigações ante as leis divinas, vamos cumprindo, dentro de nós, com alegria, as palavras do Excelso Amigo, Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ama teu próximo como a ti mesmo”, não importa onde, não importa quando, não importa quem.

Bibliografia:

1 – XAVIER, F. C. – Palavras de Vida Eterna – ditado pelo Espírito Emmanuel – 20ª edição, Edição CEC, Uberaba/MG – 1995 – lição 160.

2 – idem – lição 159.

3 – XAVIER, F. C. – Vinha de Luz – ditado pelo Espírito Emmanuel – 14ª ed., FEB, Rio de Janeiro/RJ – 1996 – lição 114.

4 – XAVIER, F. C. – Caminho, Verdade e Vida – ditado pelo Espírito Emmanuel – 17ª ed., FEB, Rio de Janeiro/RJ – 1997, lição 71.

Leda Maria Flaborea