Um mundo melhor…

 

É usual ouvirem-se comentários do gênero “isto está cada vez pior”, “isto não tem solução”, “o mundo está cada vez pior”…, e os noticiários, caprichosamente escolhidos para que apenas apareçam as situações mais lamentáveis, acabam por cimentar esta ideia.

Aparentemente o mundo está pior, tendo em conta tanta violência, tanto desnorte do ser humano, tanta impunidade perante o erro deliberado, tanta indiferença perante o sofrimento alheio.

O homem refugia-se, alucinado, no seu egoísmo, tentando nada ver além do seu ego. Digamos que é um mecanismo de fuga… para dentro, no pior sentido.

Perdido o Norte de Deus, desvalorizados os valores ético morais, o Deus dinheiro levou a humanidade, aliada ao Deus egoísmo, a um beco sem saída.

Vendo estes acontecimentos à luz da Doutrina Espírita (ou Espiritismo), conseguimos verificar que os momentos atuais assemelham-se ao chamado “fim dos tempos”, a que o Evangelho se refere. No entanto, este “fim dos tempos” não significa que o planeta Terra vá desaparecer, mas será, sim, o fim dos tempos de misérias morais e materiais que agora vemos campearem na Terra.

A “separação do trigo e do joio” e o “juízo final” são, na óptica espírita, a seleção dos Espíritos que voltarão a reencarnar na Terra, Espíritos comprometidos com o bem, com a paz, com a fraternidade. Os demais, os violentos, serão transferidos, por uma questão de sintonia, para outros planetas mais atrasados, em consonância com o seu íntimo, para que ali expiem os erros de agora, em busca de um devir melhor, ao longo dos milênios.

Nunca na Terra se viu tanto Bem como nos dias que correm, o fim das fronteiras, as organizações não governamentais que buscam auxiliar o próximo, as organizações ecologistas, as organizações de defesa dos animais, do meio ambiente, dos explorados, das minorias, da igualdade de oportunidade entre gêneros, entre tantas coisas boas que se passam no mundo, e que apenas não aparecem nas televisões.

Somente o Amor, o perdão, a compreensão podem auxiliar o Homem a libertar-se do egoísmo, do ódio, da intolerância

A Física quântica deu a machadada final no Materialismo, comprovando o que o Espiritismo apresentou ao mundo em 1858: tudo é energia, em diversos estados, mais ou menos condensados.

Cientistas de todo o mundo comprovam a reencarnação e a comunicabilidade dos Espíritos, indo de encontro aos ensinamentos do Espiritismo.

O próximo passo para a Humanidade, inevitável, será incorporar esses conceitos e compreender as consequências morais desses princípios básicos da Vida.

Quando o Homem entender que é um Espírito imortal, temporariamente num corpo físico, que tem uma multiplicidade de existências físicas com o desiderato de atingir um dia o estado de Espírito puro, que tudo o que fizer hoje na sua vida repercutir-se-á em si mesmo, nesta e noutras existências, colhendo (bem ou mal) aquilo que for semeando no bojo do seu psiquismo, então, a Humanidade transformar-se-á mais rapidamente.

Será a época da regeneração do Espírito, época essa que já está em curso com a reencarnação de Espíritos mais evoluídos, comprometidos com a Paz.

Os dias de hoje são, pois, de esperança, de alegria pelo devir, já ali a seguir a curva da evolução inevitável, competindo-nos, mais do que lamentar a situação atual, fazer a parte que nos compete: fazer ao próximo aquilo que gostaríamos que nos fizessem, se estivéssemos no seu lugar.

A Lei de Causalidade (Causa e Efeito) é inexorável e, relembrando as palavras sábias do grande psicoterapeuta da Humanidade, Jesus de Nazaré, “a cada um de acordo com as suas obras”.

Deixemos, pois, um rastro de luz, de paz, de alegria, de esperança, por onde passarmos ao longo do nosso dia, e estaremos a colaborar com os Espíritos superiores na transformação moral do Planeta, objetivando a instalação de sociedades pacíficas, fraternas, evoluídas, na Terra, para onde voltaremos se tivermos mérito para isso.

Apesar de tudo, o mundo está muito… melhor!!!

Bibliografia:

Kardec, Allan – O Livro dos Espíritos.

Kardec, Allan – O Evangelho segundo o Espiritismo.

José Lucas

 

Ingratidão dos filhos.

Como superar?

Dia desses recebi e-mail de uma mãe alegando sofrer demais com a ingratidão do filho. Estava ela numa cadeira de rodas, com o pé quebrado, e o rapaz, forte e saudável, recusou-se a ajudá-la. Naturalmente que, como mãe e ser humano que é, ficou chateada a indagar:

Que fiz eu, meu Deus, para merecer filho tão ingrato, que em nada ajuda a mãe, mesmo quando ela necessita?

Santo Agostinho, em O Evangelho segundo o Espiritismo, da-nos sábias lições em mensagem intitulada – A ingratidão dos filhos e os laços de família.

Diz-nos o Espírito de Agostinho que Deus não faz provas superiores às nossas forças, e que podemos vencer o complicado desafio da ingratidão dos filhos.

Indica deixarmos de olhar apenas o presente e voltarmos os olhos ao passado para, com a ideia das múltiplas existências, encontrarmos um consolo e forças para prosseguir.

Pois bem, não é tarefa fácil deixar de esperar reconhecimento, ainda mais de alguém tão ligado a nós pelos laços do coração e do sangue, como os filhos.

O próprio Agostinho reconhece como são complicados os assuntos pertinentes ao coração. Muito mais difícil enfrentar a ingratidão do que a mesa escassa.

Seria mesmo grande ingenuidade considerar que não brotará um mínimo de decepção no indivíduo que recebe a indiferença, quando não a aversão de alguém tão querido.

Entretanto, vale lembrar que estamos no Planeta Terra, orbe de provas e expiações, e, portanto, o impossível é Deus errar. Logo, ingratidão, venha de quem vier é sempre algo possível e até comum de acontecer.

Aliás, eis a vida mostrando isto em todos os instantes.

O grande ponto é aprendermos a lidar com ela, a ingratidão, principalmente dos mais caros a nós.

Ou, melhor, iniciarmos o processo de não esperar nada, absolutamente nada de quem quer que seja.

Como fazer isto?

É um trabalho íntimo que requer muito esforço, porém, é possível realizá-lo.

Evoluir de tal modo que nosso agir seja sempre no bem, independentemente do que outras pessoas irão pensar ou falar, até porque isto não nos diz respeito.

Treinar o desapego do reconhecimento, pois será isto que nos dará a independência do “Obrigado”.

A caridade que praticamos, o amor que doamos, as provas de renúncia e abnegação, o suor que vertemos em benefício alheio, em realidade, ajuda muito mais a nós do que ao outro, pois somos sempre os primeiros beneficiados pela caridade praticada.

É como consta em O Evangelho segundo o Espiritismo, na mensagem de Lázaro denominada “O dever”. O dever, em primeiro lugar, é para comigo, depois com o outro. Ora, se o dever é para comigo, então, vou estender minha mão ao outro, pois será assim que trabalharei pela minha própria evolução.

Quem acende em si a luz da caridade ilumina quem está ao redor e jamais ficará imerso nas trevas.

Portanto, agradecer é dever de quem recebe, mas nem todos cumprem o dever.

Entretanto, não esperar gratidão, reconhecimento ou mesmo um mero obrigado é o antídoto para livrar-se da decepção.

Tornar a prática do bem um hábito, de tal modo que dia chegará em que agiremos no bem sem perceber, e de forma tão espontânea que agradeceremos quando recebermos e não cobraremos quando beneficiarmos…

Assim, livres de nos sentirmos vítimas da ingratidão alheia, seguiremos nosso caminho sempre fazendo o bem, não por recompensa, mas porque é um hábito que adquirimos com muito treino e vontade de gozar um pouco de liberdade que só o bem nos concede.

Wellington Balbo

As várias mortes em uma vida

As várias mortes em uma vida

“Não há mal que por bem não venha.” (Ditado espanhol.)

O que é vida, sob o ponto de vista terreno?

Vida é tudo aquilo que acontece entre o nascer e o morrer do corpo físico: eventos físicos, sociais, psíquicos ou espirituais que ocorrem ao longo de uma existência na Terra.

Tudo o que nos acontece de bom, ruim ou neutro tem, como objetivo principal, nossa evolução. (Recordando que muitas vezes aquilo que julgamos como mau é, em verdade, algo bom e vice-versa).

Diz a Lei que devemos nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre. Portanto, não existe a possibilidade de retrocedermos na caminhada, tampouco de desistirmos no caminho. Não conseguimos nos destruir, não existe a possibilidade da inexistência. Sobreviveremos a tudo. O que temos é o direito de decidir se sofreremos mais ou menos durante este rico e maravilhoso percurso.

E, dentro deste processo chamado vida, vamos presenciando um desfilar de mortes, em todas as fases vividas. Finalizações de etapas, de ciclos, perdas de entes queridos, mudanças de cidades, de amizades, de trabalho, alterações no corpo, na situação social, nos planos, na forma de ver o mundo, nos sonhos. Muitas mortes, muitas dores e lamentos.

A Lei da Impermanência, mostrando-nos o inevitável, porque necessário.

Porém, quando conseguimos reconhecer que os fechamentos não são para nos destruir, mas para nos fortalecer, automaticamente o sofrimento acaba, dando lugar à aceitação e à gratidão. Deixamos de lado as reclamações, as revoltas, os muxoxos e nos focamos no que deve ser realizado por aqui.

Eis a maturidade que devemos buscar.

RENASCER PARA CRESCER EM ESPÍRITO

Quando decidimos pela reencarnação, morre temporariamente para nós a realidade suprema e absoluta: nossa vivência espiritual.

Somos Espíritos, portanto nossa dimensão natural é a do mundo dos Espíritos. É lá que podemos ser o nosso eu real, desprovido de máscaras ou necessidades materiais. Conseguimos nossa relativa liberdade, muitas vezes com magnifica ampliação de consciência, podendo focar nossa atenção em fatos e situações realmente relevantes, além de nos dedicarmos a assuntos de maior necessidade.

Por certo não deve ser fácil decidir pela reencarnação, embora seja esta decisão inevitável, quando precisamos aprender determinadas experiências relacionais e planetárias. Mas a verdade é que o medo do fracasso pode surgir no cenário, causando grande angústia ao Ser reencarnante.

Vemos, ainda, o luto com relação àquilo que deixaremos para trás – o que chamamos de luto antecipatório.

No livro Nosso Lar, do Espírito André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, no capítulo 47, o médico carioca nos conta que Dona Laura, uma grande trabalhadora daquela cidade espiritual, na véspera de retornar ao Plano Físico, encontrava-se ansiosa, séria, acabrunhada. Sentia enorme receio de retornar, tendo em vista as possibilidades porvindouras. Não que ela fosse viver um plano de enormes problemas, mas sabia das dificuldades que enfrentamos na Terra, do quanto precisamos batalhar para alcançarmos a paz necessária para atravessar as dificuldades que a vida se nos apresenta.

Foi quando Ministro Genésio, um dos convidados para a festa de despedida dela, em tom firme, falou ao seu coração preocupado:

“… precisamos confiar na Proteção Divina e em nós mesmos. O manancial da Providência é inesgotável. É preciso quebrar os óculos escuros que nos apresentam a paisagem física como exílio amargurado. Não pense em possibilidades de fracasso; mentalize, sim, as probabilidades de êxito”.

Podemos destacar aqui sobre a necessidade de mentalizar, de focar o positivo da experiência. Do quanto precisamos confiar na dinâmica da Vida, na proteção e direcionamento positivo que ela proporciona, sempre. Quando nossas crenças mais profundas ditam o fracasso, impossível o sucesso. É preciso desenvolver uma visão real, consistente e coerente com a realidade da Vida, que traz o bem sempre, mesmo que sob o disfarce de algo mau.

Após longo diálogo, Dona Laura encheu-se de coragem e força e tornou a se alegrar diante das oportunidades que surgiriam em sua empreitada na Terra.

O luto foi elaborado. Aceitou a necessidade de sua reencarnação com tranquilidade e boa energia.

SER CRIANÇA PARA ABSORVER

Assim como ela, quando renascemos precisamos, inevitavelmente, obedecer a Leis Naturais, relativas ao desenvolvimento físico e psicológico, oriundo do mundo material. O corpo infantil vai crescendo e, com ele, os processos mentais vão ficando cada vez mais complexos, muita vez carregados de imputs nem sempre positivos.

A perda relativa da memória espiritual nos permite estar mais livres para as novas aprendizagens. Interferimos menos, questionamos menos, aprendemos mais. Por outro lado, este momento é de extrema delicadeza e vulnerabilidade. Se os adultos não se atentam para a psicologia infantil, se não observam as necessidades de aprendizagem positiva de uma criança, para além das questões intelectuais, acabam por contaminar o Espírito reencarnante com estímulos deletérios, capazes de comprometer toda a caminhada do Ser.

Com frequência pergunto às pessoas se elas acreditam ser mais importante ter um filho ou dirigir um carro. Pergunta esta que certa vez fizeram para mim e que me encheu de estranheza. Então me dizem: “Claro que é mais importante ter e educar um filho!”. Diante da óbvia resposta, torno a fazer nova pergunta: “Então, por que será que para guiar um carro nos preparamos tanto, com leituras, aulas e testes, enquanto que, para ter um filho, a maior parte das pessoas somente realiza sexo?”

Leituras sobre a psicologia infantil, sobre formas de educar, sobre as variadas pedagogias disponíveis são de suma importância! Encontros, trocas e pesquisas, também!

Eu, como Psicóloga, ficaria imensamente feliz se um jovem casal me procurasse para discutir questões relacionadas a estes temas, antes do nascimento do primeiro filho. Esta seria uma medida inteligente. Mais que isso – uma ação verdadeiramente amorosa, comprometida, responsável.

E, ainda dentro da temática “morte”, Ser criança é também ver morrer na alma, aos poucos, a leveza interior. Com o passar dos anos, os pequenos vão tendo contato com dificuldades e desafios e aprendendo que os adultos nem sempre são confiáveis e corretos. Aprende com a mentira; existe mesmo no meio infantil que para ser amado é preciso bem mais que apenas ser um filho, mas que é preciso corresponder a muitas expectativas, nem sempre possíveis para ela.

ADOLESCÊNCIA: A PERDA DA INFÂNCIA E O MEDO DO MUNDO ADULTO

Os anos vão passando e, se ainda encarnados, vamos vivenciando mudanças significativas. Das naturais, relativas ao físico, a perda do corpo infantil gera angústias no adolescente. O tamanho, as formas, tudo gera estranheza. Muitas vezes ele nem consegue se dar conta do espaço que ocupa no ambiente, resvalando nos móveis e cantos, machucando-se.

Outra perda significativa diz respeito à sua ligação com os pais. Aqueles que pareciam ser os super-heróis perfeitos e verdadeiros passam a ser questionados. Discussões podem ocorrer; o jovem busca sua própria identidade, que deve ser diferente da dos pais. Existe grande conflito interno, com questionamentos variados, que vão desde questões de cotidiano até filosóficos. O adolescente vive um luto dos pais idealizados que devem ser substituídos por figuras mais reais, falíveis. E isso gera angústias.

Outro luto vivido pelo adolescente é o relacionado à própria identidade. Ele não sabe quem é ao certo. Memórias de tendências desenvolvidas em outras vidas, até então retidas no banco do inconsciente, passam a tomar espaço no psiquismo, o que por vezes causa conflitos naqueles com quem convive, assim como nele próprio.

Junto a tudo isso, dependendo de suas vivências, do clima de seu lar, das frases que escuta e dos atos que percebe à sua volta, este adolescente pode sentir grande receio de adentrar no mundo adulto, por lhe parecer opressor, injusto e caótico demais.

Filhos que veem seus pais brigando com frequência ou com conflitos no campo profissional tendem a apresentar dificuldades nos relacionamentos e nas escolhas necessárias. Além disso, podem tentar “segurar” a vida, infantilizando ou evitando responsabilidades por longos períodos.

Vale dizer que, em todos os casos, o diálogo franco, a escuta amorosa e a orientação segura devem permear as relações entre pais e filhos, para que estas crises, comuns nesta fase, sejam superadas com certa tranquilidade.

Claudia Gelernter

Um mundo mais informado é um mundo menos violento

Talvez estejamos ficando melhores porque estamos ficando mais inteligentes, conclui o neurocientista Steven Pinker, professor da Universidade Harvard (EUA), após exaustiva pesquisa sobre a impressionante queda da violência humana nos últimos séculos.

A pesquisa do professor Pinker redundou em uma obra de mais de mil páginas intitulada Os anjos bons da nossa natureza, que, contrapondo-se ao senso comum, mostra que a violência em quase todas as escalas – na família, nos bairros, entre tribos e outras facções armadas e entre nações e Estados importantes – vem sofrendo evidente redução. O século XX não foi um mergulho permanente na perversidade. Ao contrário, a tendência moral duradoura deste século foi um humanismo avesso à violência que se iniciou nos século XVII e XVIII (“das Luzes”). Apesar das duas grandes guerras, as grandes potências mundiais não lutam entre si desde 1945. Um período de paz tão longo entre os Estados mais poderosos não tem precedentes.

Tal constatação não é resultado de uma opinião pessoal, mas de dados estatísticos indiscutíveis. O autor confessa seu assombro diante dos dados: viver na civilização reduz em cinco vezes as chances de uma pessoa ser vítima de violência. O lugar mais seguro na história humana, a Europa Ocidental, desde a virada do século XXI, vem tendo uma taxa de homicídios de um por 100 mil. No século XIV tal taxa era da ordem de 110 homicídios por 100 mil habitantes. A estarrecedora parcela de 26% dos homens aristocratas morria por violência nos séculos XIV e XV. A taxa caiu para a casa de um dígito na virada do século XVIII, e hoje, obviamente, está quase zerada. A Inglaterra do século XX era 95% menos violenta do que do século XIV. Uma cultura da honra – a prontidão para vingar-se – deu lugar a uma cultura da dignidade – a prontidão para controlar as emoções.

No decorrer de pouco mais de um século, práticas cruéis que por milênios haviam sido parte da civilização foram subitamente abolidas, como a execução de bruxos, a tortura oficial de prisioneiros e a perseguição a hereges e estrangeiros. As revoluções por direitos nas últimas décadas mudaram, de forma radical, a forma de ver e se conduzir diante das mulheres e crianças, dos negros, dos animais e dos homossexuais. O fim de grande parte das ditaduras militares ou civis acompanhou essas revoluções liberais. Do mesmo modo que fumar em escritórios e salas de aula passou de coisa comum a proibida e depois a impensável, práticas como a escravidão e o enforcamento público tornam-se tão inimagináveis que nem sequer são assuntos de debate.

O que mudou no ambiente das pessoas que poderia ter desencadeado tal revolução humanitária? Ao analisar as causas do fenômeno, o autor acredita que a mais abrangente mudança nas sensibilidades comuns deixada por essa revolução é a reação ao sofrimento de outros seres vivos. As pessoas de hoje estão longe de ser moralmente imaculadas, mas a maioria não tem vontade alguma de ver um cão e muito menos uma pessoa, morrer queimado.

E o que teria levado a isso? Steven Pinker relaciona várias causas, mas chama a nossa atenção para uma delas: o aumento na produção de livros, o hábito da leitura, o esclarecimento e o incremento das informações, além de um notável aprimoramento do raciocínio abstrato, verificado nos testes de QI, realizados nas últimas décadas.

Afirma o autor citado que a expansão da mente, decorrente de boas leituras deve ter adicionado uma dose de humanitarismo às emoções e crenças das pessoas. Ler é uma tecnologia para mudança de perspectiva. Quando nós temos na cabeça os pensamentos de outra pessoa, observamos o mundo do ponto de vista dessa pessoa, o que nos seduz a pensar e sentir como pessoas muito diferentes de nós mesmos. Revisitem o que deu errado no mundo Islâmico, opina o professor Pinker, pode ter sido a rejeição à imprensa escrita e a resistência à importação de livros e ideias neles contidos.

A difusão de boas ideias resulta em reformas que reduzem a violência por vários caminhos. O mais óbvio é o desmascaramento da ignorância e da superstição. Cita Voltaire quando afirma que aqueles que conseguem fazer você acreditar em absurdos podem fazer você cometer atrocidades. Outro caminho é um incremento dos convites à adoção dos pontos de vista de gente diferente de nós, acelerando o processo de tolerância nas relações humanas.

Existe um terceiro caminho pelo qual a informação pode fecundar o progresso moral: incrementando o progresso tecnológico e a melhoria das condições de vida das pessoas. Sociedades tecnologicamente atrasadas tendem a ser moralmente atrasadas também.

As conclusões de Steve Pinker são admiravelmente coincidentes com o pensamento Kardequiano, embora a distância de mais de 150 anos entre os dois pensadores.

No que se refere à queda dos índices de violência, Kardec provocou os Espíritos, indagando: como é bastante grande a perversidade do homem, não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos?

A resposta dos Espíritos, conforme se lê no item 784 de O Livro dos Espíritos, é essa: – “Enganas-te. Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos”.

No que tange à importância do desenvolvimento tecnológico no desenvolvimento dos caracteres morais, os Espíritos foram igualmente concordantes com o autor que ora visitamos, pois quando Allan Kardec indaga se o progresso moral acompanha sempre o progresso Intelectual, eles respondem:

– “Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente”. (O Livro dos Espíritos, item 780.)

E acrescentam que pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos. (O Livro dos Espíritos, item 781)

Numa bela análise das reformas em processo na Terra, Kardec, no último capítulo do livro A Gênese, revalida o pensamento apresentado pelos Benfeitores em O Livro dos Espíritos, conforme as anotações abaixo:

Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e mais produtiva a terra. Depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar material, produto da inteligência, logra-se compreender que o complemento desse bem-estar somente pode achar-se no desenvolvimento moral. Quanto mais se avança, tanto mais se sente o que falta, sem que, entretanto, se possa ainda definir claramente o que seja: é isso efeito do trabalho íntimo que se opera em prol da regeneração. Surgem desejos, aspirações, que são como que o pressentimento de um estado melhor.

Lembra, todavia, o nosso Codificador, que há muito que ser feito, pois falta a essas reformas uma base que permita se desenvolvam, completem e consolidem; falta uma predisposição moral mais generalizada, para fazer que elas frutifiquem e que as massas as acolham.

Refere-se Kardec ao papel da fé raciocinada, da crença fundamentada na razão e em uma espiritualidade que seja elemento de construção de mais fraternidade, entendimento e boa vontade entre os homens:

A destruição do materialismo, que é uma das chagas da sociedade. O Espiritismo pode fazer com que os homens compreendam onde estão seus verdadeiros interesses. Como a vida futura não mais será velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que pode garantir seu futuro por meio do presente. Destruindo os preconceitos de seitas, castas e cores, o Espiritismo ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos. (O Livro dos Espíritos, item 799.)

Ricardo Baesso de Oliveira

Tolerância e respeito

A diversidade religiosa é uma das marcantes características culturais que assinala a humanidade. São milhares de denominações que definem religiões e seitas, reunindo, em todos os pontos da Terra, seguidores de todos os credos.

Essa pluralidade de crenças, em conjunto com a diversidade étnica, torna as relações entre os povos ainda mais complexas, sendo responsável por inenarráveis conflitos que envolvem o homem desde os primórdios.

Recentemente o Rio de Janeiro foi palco de um episódio de grande desrespeito e intolerância religiosa, com agressões verbais e apedrejamento de uma criança de apenas onze anos, conforme relata a revista Isto é, em nota cujo título é “Pedrada do preconceito” (1).

Neta de espírita e filha de evangélica, a estudante Kayllane Campos tem em sua casa uma amostra da saudável tolerância religiosa que existe no Rio de Janeiro, desde que o candomblé, vindo da África, ancorou no bairro carioca da Saúde em 1886 e nele abrigou os primeiros cultos organizados por Mãe Aninha, congregando diversas religiões. Nada tem a ver com a tradição do Rio de Janeiro, portanto, as covardes agressões que a adolescente Kayllane, 11 anos de idade, sofreu na semana passada devido à sua fé. Ela foi apedrejada por dois supostos evangélicos quando saía de um culto de candomblé, e novamente se tornou vítima de violência, dessa vez verbal, quando chegava ao IML para exame de corpo de delito – “macumbeira, macumbeira, vá queimar no inferno”, gritavam insistentemente algumas pessoas. “Quem tacou pedra é vândalo que se esconde atrás da palavra de Cristo”, diz Karina Coelho, a evangélica que é mãe da praticante do candomblé Kayllane. “Eu condeno as pessoas que feriram minha filha”.

O que leva o homem a manifestar esse comportamento? Por que a diversidade de credos paradoxalmente levanta contendas, quando as religiões deveriam ter, por princípios fundamentais, a ética da tolerância, a caridade, o respeito, o amor fraterno, a compreensão e a paz?

As contendas político-religiosas são antigas, e a história registra perseguições implacáveis, desrespeito aos direitos mais básicos do homem e execuções cruéis, como as relatadas no Antigo Testamento, que marcam a rivalidade entre os profetas de Baal e Elias(2). Em todos os momentos da história da humanidade está presente a concepção dualística, que tenta estruturar o mundo à semelhança de uma balança que oscila na eterna batalha entre o bem e o mal, ou entre o mito de Satã e Deus.

A Idade Média é pródiga na propugnação dessa ideia, e as cruzadas representam um marco desse pensamento, pois registram episódios sórdidos, como o impiedoso extermínio dos cátaros ou albigenses, que deixou marcas atrozes de uma perseguição insana, fundamentada nos interesses e preconceitos da Igreja antiga, a qual definiu o catarismo como heresia maniqueísta.

São muitos os episódios de intolerância religiosa ocorridos no período que compreendeu a Idade Média, culminando com o Tratado de Paz de Westphalia (região do norte da Alemanha) que veio laureado por um antigo princípio: cujus regio, eius religio (quem tem a região tem a religião). Esse princípio marca a assinatura do Tratado, ocorrido em 1648, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos, conflito que, por sua vez, teve por estopim a rivalidade política existente entre o Imperador Habsburgo, do Sacro Império Romano-Germânico (católicos) e as cidades-Estado comerciais protestantes (luteranas e calvinistas) do norte da Alemanha, que fugiram ao seu controle.

A Paz de Westphalia garantiu, portanto, o direito de cada Estado manter seu regime e religião, sem interferência externa.

Esses acontecimentos, entretanto, não encerram os episódios de intolerância, embora tenham estabelecido o princípio de tolerância e liberdade religiosa.

Incomodado com essa questão, o filósofo jusnaturalista inglês, John Locke (1632 – 1704) resolve, em 1689, publicar uma carta acerca da intolerância (3), quando passa a defender a tolerância religiosa a partir da separação de Estado e Igreja, esclarecendo, de forma irrefutável, qual é o principal distintivo de uma verdadeira igreja, bem como o do verdadeiro homem de bem, digno de ser chamado cristão:

Se um homem possui todas aquelas coisas (bens materiais), mas lhe faltar caridade, brandura e boa vontade para com todos os homens, mesmo para com os que não forem cristãos, ele não corresponde ao que é um cristão.

E continua Locke, a nos ensinar acerca da tolerância religiosa:

Quem for descuidado com sua própria salvação dificilmente persuadirá o público de que está extremamente preocupado com a de outrem. Ninguém pode sinceramente lutar com toda a sua força para tornar outras pessoas cristãs, se não tiver realmente abraçado a religião cristã em seu próprio coração. Se se acredita no Evangelho e nos apóstolos, ninguém pode ser cristão sem caridade, e sem a fé que age, não pela força, mas pelo amor (4).

Os ensinamentos de John Locke corroboram com o pensamento de Allan Kardec, no resgate à aplicação da tolerância e do respeito, conforme lecionou o Mestre Jesus.

Fundamentado na ética do amor, que marca a mensagem do Cristo, o Codificador realça, com o ensino dos Espíritos, na mais pura acepção, o significado valorativo de tolerância e respeito, em O Livro dos Espíritos, quando fala da Lei de Igualdade (5). Esta Lei estabelece respeito como sendo uma atitude que consiste em não prejudicar alguém ou alguma coisa, evocando, assim, a regra de ouro que deveria nortear as relações entre os homens:

822. Sendo iguais perante a lei de Deus, devem os homens ser iguais também perante as leis humanas?

“O primeiro princípio de justiça é este: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem”.

O mestre lionês não apenas teoriza, mas exemplifica tolerância e respeito, ao superar com grandeza os ataques feitos ao Espiritismo, soprando, para bem distante, as cinzas do Auto de Barcelona, aconselhando-nos (6):

O Espiritismo se dirige aos que não creem ou que duvidam, e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas, e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas ideias o clero, de qualquer comunhão que seja. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa vontade; oferecei a luz aos que a procuram, porque com os que creem não sereis bem-sucedidos; não façais violência à fé de ninguém, muito mais quanto ao clero que aos seculares, porque semeareis em campos áridos; ponde a luz em evidência, para que a vejam os que quiserem ver; mostrai os frutos da árvore e deles dai de comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados.

Ao tratar da Constituição Transitória do Espiritismo (7), Kardec aproveita para enfatizar o tema respeito e tolerância, exprimindo argumentos que marcam a robustez da Doutrina Espírita:

Acrescentemos que a tolerância, fruto da caridade, que constitui a base da moral espírita, lhe impõe como um dever respeitar todas as crenças. Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por constrangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes princípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos.

Fica-nos claro, portanto, que a tolerância exige o respeito à regra de ouro presente na Questão 822 de O Livro dos Espíritos, mas entendemos que ela não é suficiente por ter características de uma virtude passiva: é necessário ir além do tolerar. É preciso amar o próximo como recomenda Jesus, e romper com os limites que estabelecemos para apenar alguém, como estabelece Pedro, ao perguntar ao Mestre: “Quantas vezes devo perdoar meu irmão? Sete vezes?”.

Sabemos que o excesso de tolerância leva à indiferença e a ausência da tolerância leva à intolerância, mas, quando respeitamos o próximo, nós o amamos, e o amar é ativo, pois nos convida a romper os limites, conforme ensina Jesus: “Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas” (8).

Cumprir a primeira milha é não fazer o mal ao próximo, cumprindo nossa obrigação de cristão. Cumprir a segunda milha consiste em amar o próximo para alcançar a elevação.

Referências:

Revista Istoé – 24 de junho de 2015, nº 2377, Ed. Três
A Bíblia de Jerusalém – 1º Reis 18: 1/40 – Edições Paulinas
LOCKE, John – Coleção “Os Pensadores” – Abril Cultural – pág. 03-39
Idem LOCKE, John
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos – Feb
KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1863 (pág. 367) – Feb
KARDEC, Allan. (Revista Espírita 1868, pag. 515) – Feb
A Bíblia de Jerusalém – Mateus 5, vv.41 – Edições Paulinas.

Artigos Internet

Dossiê Intolerância Religiosa – http://intoleranciareligiosadossie.blogspot.com.br/
A nova ordem global – http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_75.htm

 

Transcrito de: “Brasília Espírita”, GEABL, no.198, janeiro-fevereiro de 2016

Warwick Mota