A Serpente e o Sábio

Contam as tradições populares da Índia que existia uma serpente venenosa em certo campo. Ninguém se aventurava a passar por lá, receando-lhe o assalto. Mas um santo homem, a serviço de Deus, buscou a região, mais confiado no Senhor que em si mesmo. A serpente o atacou, desrespeitosa. Ele dominou-a, porém, com o olhar sereno, e falou:
– Minha irmã, é da lei que não façamos mal a ninguém.

A víbora recolheu-se, envergonhada. Continuou o sábio o seu caminho e a serpente modificou-se completamente. Procurou os lugares habitados pelo homem, como desejosa de reparar os antigos crimes. Mostrou-se integralmente pacífica, mas, desde então, começaram a abusar dela. Quando lhe identificaram a submissão absoluta, homens, mulheres e crianças davam-lhe pedradas. A infeliz recolheu-se à toca, desalentada. Vivia aflita, medrosa, desanimada. Eis, porém, que o santo voltou pelo mesmo caminho e deliberou visitá-la. Espantou-se, observando tamanha ruína. A serpente contou-lhe, então, a história amargurada. Desejava ser boa, afável e carinhosa, mas as criaturas perseguiam-na. O sábio pensou, pensou e respondeu após ouvi-la:
– Mas, minha irmã, ouve um engano de tua parte. Aconselhei-te a não morderes ninguém, a não praticares o assassinato e a perseguição, mas não te disse que evitasses de assustar os maus. Não ataques as criaturas de Deus, nossas irmãs no mesmo caminho da vida, mas defende a tua cooperação na obra do Senhor. Não mordas, nem firas, mas é preciso manter o perverso à distância, mostrando-lhe os teus dentes e emitindo os teus silvos.

Francisco Cândido Xavier  Da obra: Os Mensageiros.

O Artigo

Ainda que a justiça dos homens não puna nossas
faltas, nada escapa a Deus

Após anos de sucesso, o concurso de artigos destinado a alunos, funcionários e professores foi, mais uma vez, lançado naquela famosa faculdade. Os alunos competiam entre si, mas os funcionários graduados concorriam com os professores. Naquele ano, um dos concorrentes do corpo docente soube de uma funcionária muito dedicada que, embora ela jamais houvesse participado do concurso antes, daquela vez seria sua vencedora, ainda que aquela fosse, também, a primeira vez que escreveria um artigo[1].
O prêmio para o vencedor era bastante generoso: três mil reais. Isso equivalia a dois meses de trabalho de Marcela, a concorrente imbatível. Assim mesmo, Genebaldo, professor de História da instituição promotora do concurso, resolvera participar. Afinal, no evento do ano anterior fora o vencedor, com o ensaio intitulado A ética na educação. Por isso mesmo, confiava na lisura de sua coordenadora. Entre professores e funcionários, havia mais de trinta participantes do certame.
Genebaldo trabalhava no mesmo departamento da exemplar funcionária, a quem devia favores mil, como o de conferir lançamentos de menções de seus alunos em diários, tirar cópias de exercícios e provas, fornecer materiais didáticos para suas aulas etc. É certo que havia outras secretárias e secretários no local, que faziam o mesmo serviço, mas a funcionária chefa de todos eles era Marcela. Sem sua autorização, nada de cópias, nada de material didático, nada de conferência de diários etc.
Dias antes de Marcela inscrever seu trabalho, a coordenadora do concurso saíra catando todos os artigos premiados dos anos anteriores e, como cedera alguns a Genebaldo, para que este os utilizasse com seus alunos no ensino de produção textual referente ao gênero, perguntou-lhe se o preclaro professor poderia devolver-lhe o material cedido, com o que este aquiesceu.
Numa bela manhã, após o encerramento das inscrições, uma colega de Marcela, que se chamava Larissa, muito querida por todos os colegas e professores, ao atender Genebaldo com o fornecimento de pincel para anotações no quadro branco, espontaneamente, disse-lhe o seguinte: “Professor, o resultado do concurso do qual o senhor participou deve sair na próxima semana, e a Marcela, que também participou, vai ser premiada como autora do melhor trabalho, pois a coordenadora do evento está ajudando-a. Esse será também um reconhecimento público à competência profissional da colega, que trabalha aqui há mais de dez anos e está meia endividada”.
“Como assim? O regulamento prevê autoria exclusiva, os artigos ainda nem foram avaliados e você já sabe quem vai ganhar? Não sabia que era médium clarividente, pois os dados dos concorrentes são sigilosos.”
“Não é nada disso, fessô. Acontece que a colega está passando uma grande dificuldade financeira e precisa do dinheiro para pagar suas dívidas. E ela merece…”
“Ah, sim, já entendi. Uma semana antes de serem avaliados todos os artigos e ser publicado o resultado do concurso, com os nomes dos ganhadores dos prêmios, há uma participante, mais você e a professora coordenadora do evento que estão cientes de quem será sua vencedora, na categoria professores e funcionários, não é isso mesmo? É justo, é justíssimo… Só não sei se os demais concorrentes, se souberem disso, também acharão justo.”
Na semana seguinte, Marcela foi declarada a vencedora do evento e, dias depois, falou, meio sem graça, a Genebaldo: “Pois é, professor, esta foi a primeira vez que participei do concurso e consegui o primeiro lugar… Muita sorte, né?”.
“Parabéns”, respondeu-lhe o professor, abraçando-a. “Você precisa…”
Mas não deixou de pensar: “Sorte nada, alto QI. Bem feito para nós, mestres, doutores e outros funcionários graduados que não soubemos escrever um bom artigo”.
Por coincidência, aquele foi o último ano do concurso. Como há coordenadores generosos neste mundo…
A história acima foi-nos contada por um professor nostálgico dos tempos em que já se pensou em uma educação voltada para formar hábitos saudáveis, respeito à ética, aos valores fundamentais do direito, dos bons costumes e da moral. “Infelizmente – dizia-nos ele – há muita gente que faz da teoria um meio de alcançar seus objetivos espúrios, sem nenhuma preocupação em reformular seus próprios princípios duvidosos e sem cogitar sobre as consequências do mau uso do livre-arbítrio em nossas curtas vidas na Terra.”
Segundo Allan Kardec, na questão 685-a de O Livro dos Espíritos, há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a multidão de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.[2]
Infelizmente, algumas pessoas, quando investidas do poder temporal na Terra, deturpam, com seus atos, os valores mais elementares da ética, se desejam beneficiar as criaturas que estimam, com um paliativo para suas dificuldades financeiras, quando podem, perfeitamente, aumentar seus salários. Preferem fingir que premiam esse ou aquele com a criação de concursos fraudulentos do que respeitar o trabalho e o mérito de muitos outros que, ingenuamente, creem na lisura da avaliação de seus esforços.
Vemos, com indignação, em nossa sociedade contemporânea, tornarem-se comuns situações como a descrita na história acima, seja em concursos públicos ou na iniciativa privada. Difícil é provar a falta de lisura, ainda que isso fique evidente, pois, mesmo que o consigamos, tal “atrevimento” poderá implicar em nossa demissão, caso pertençamos ao quadro de funcionários da empresa.
Quando a educação tiver por norma criar hábitos saudáveis, preparar o caráter do educando para os benefícios perenes da prática do bem, do respeito aos direitos do próximo, tais ajudas antiéticas não mais terão lugar em nosso mundo. Para isso acontecer, é imprescindível que se invista na educação do espírito como um todo, não somente na formação de uma mente intelectual.
A educação, segundo o educador Edgar Morin, deve basear-se nos quatro pilares seguintes: aprender a ser, a conhecer, a fazer e a conviver[3]. Os bons e os maus exemplos sempre deixam suas marcas, por isso precisamos pensar seriamente em sua força e influência. “Quantos prosseguem ou quantos desistem, influenciados, quase sempre sem consciência do fato, pelos nossos exemplos bons ou maus”[4].
A verdadeira educação fundamenta-se na elevação moral do espírito eterno, base de todas as crenças. Ainda que muitos não creiam, a Lei de Deus retribui “a cada um segundo suas obras”, conforme os ensinamentos de Jesus confirmados pelo Espiritismo.
Quem hoje lesa alguém, amanhã será lesado igualmente. Os que não acreditam nisso fatalmente terão sua comprovação quando menos esperarem. Por isso, é importante que busquemos sempre o bem, sem jamais esquecermos que, diante de Deus, não existem privilégios entre seus filhos; e não nos cabe tomar-Lhe o lugar.
Lembremo-nos da recomendação de Jesus, para que, de futuro, não venhamos a sofrer as consequências do mau uso do nosso livre-arbítrio, tão negado pelos niilistas atuais, mas a mais certa verdade cristã, que nos esclarece sobre a existência da justiça de Deus na consciência de cada um de nós: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhos também vós, porque esta é a lei e os profetas” (Mateus, cap. 6, v. 12).

[1] Todas as informações desta história têm por base dados e personagens fictícios.

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 75. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994. p. 331.

[3] OLIVEIRA, Gladis P. A missão e os missionários. Porto Alegre: Francisco Spinelli, 2009. p. 167.

[4] Idem. p. 232.

Jorge Leite de Oliveira

O Monge o Gato e a Lua

“O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativa.

Não sabe o que é o frescor de uma tarde de outono e é incapaz de ficar sozinho, sem celular, internet, televisão e aparelho de som.

Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha. Essa pequena estória de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. O que é profundamente verdadeiro só se deixa dizer bem, como atestam os sábios antigos, por pequenas histórias e raramente por conceitos. Às vezes quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que esta história nos quer comunicar: um desafio para todos.

“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Igazaim, bem ao sul do deserto de Acaman. Fazia bem 30 anos que para lá se recolhera.

Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. Junto à cabana esgueiravam-se algumas ramas de videira. Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colmeias.

“Há 30 bons anos que por aqui vivo! …”, suspirou o monge Porfiro. “Há 30 bons anos! …”. E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se neste pensamento por longas horas. “Há 30 bons anos e não me encontrei. Perdi-me para tudo e para todos, na esperança de me encontrar. Mas perdi-me irremediavelmente !”

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, de parco farnel aos ombros e semi-rotas sandálias aos pés, pôs-se a caminho das montanhas de Igazaim, após a reza pelos peregrinos. Ele sempre subia as montanhas, quando, sob forças estranhas, seu mundo interior ameaçava desabar. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto. Vivia ele sob um grande penhasco, de onde se podia ver lá embaixo os trigais da aldeia de Icanaum.

“Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. Não sei quem sou, nem para que ou para quem sou. Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas. Fiz tudo para merecer a paz. Olha meu corpo, retorcido com uma raiz, retalhado de tantos jejuns, silício e vigílias! … E aqui estou, roto e combalido, vencido pelo cansaço da procura.”

E dentro da noite, sob uma lua enorme, iluminando o perfil das montanhas, Abba Tebaíno, sentado à porta da gruta, ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro.

Depois, num destes intervalos onde as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com o Abba, veio se arrastando de mansinho até a seus pés descalços. Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se, com grandes olhos de criança, a contemplar a lua que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus.
E, depois de muito tempo, começou o Abba Tebaíno a falar com grande doçura:“Porfiro, meu filho querido, deves ser como o gato; ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim.

Toda a manhã aguarda ao meu lado um pedaço de pão e um pouco de leite desta tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim, lambendo-me os pés machucados. Nada quer, nada busca, tudo espera. É disponibilidade. É entrega. Vive por viver, pura e simplesmente. Vive para o outro. É dom, é graça, é gratuidade. Aqui, junto a mim deitado, contempla inocente e ingênuo, arcaico como o ser, o milagre da lua que sobe, enorme e abençoada. Não se busca a si próprio, nem mesmo na vaidade íntima da auto purificação ou na complacência da auto realização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua…É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se.

E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco.

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das manhãs. Seus louvores ecoaram pelas montanhas e fizeram estremecer as fímbrias do universo. Depois, deram-se o ósculo da partida.

O irmão Porfiro, de parco farnel à costas e semi-rotas sandálias aos pés, retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. Entendeu que para encontrar-se devia perder-se na mais pura e singela gratuidade.

Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

Leonardo Boff

Fundo do Poço

Uma mulher estava passeando com seu filho pequeno. O menino corria e brincava pelos campos verdes das pradarias. A mãe olha um pássaro voando, e subitamente ouve um grito de desespero do seu filho, que caiu num poço fundo e escuro. A mãe corre até o poço e vê o menino lá embaixo, preso e um pouco machucado.

Ela se desespera, fica nervosa e grita “Calma filho, vou aí te buscar!”. Ela se atira no poço, cai lá embaixo, se machuca toda, e fere ainda mais seu filho. Ela tenta subir, mas com o peso do filho, não consegue subir pela corda. Ambos, mãe e filho, ficaram lá por dias e dias. Gritavam, mas ninguém podia ouvi-los, e acabaram definhando e morrendo de inanição.

Dois anos depois desse incidente, outra mulher também estava brincando com seu filho no mesmo local. Pela ironia do destino, o filho dela também caiu lá embaixo e gritou pela sua mãe. A mulher viu seu filho lá, no fundo do poço, todo ferido, mas procurou ficar calma e refletir na melhor solução. Ao contrário da outra mãe, ela não se jogou ou desceu ao fundo do poço para salvar o filho. Ela pensou, pegou a corda ao lado do poço, jogou ao menino, e disse alto: “Filho, amarre essa corda em volta de sua barriga, que eu vou te puxar daí”.

O filho atou a corda em si mesmo, e bem devagar a mãe foi lentamente puxando o filho. Demorou um pouco, mas ele conseguiu subir com alguns ferimentos, mas são e salvo.

Quando uma pessoa que muito amamos se encontra no fundo do poço, ou seja, numa situação complicada, degradante, de sofrimento, vivendo uma grande tribulação, dor e muito ferida, não devemos nos desesperar e descer ao fundo do poço junto com ela. Unir-se a ela na dor, no sofrimento, e passar a sentir o que ela sente, nos envolvendo com a mesma dificuldade, só fará com que afundemos no poço escuro em sua companhia, mas efetivamente não nos permitirá ajuda-la.

A primeira mãe desceu ao fundo do poço com o filho, e por isso não conseguiu mais sair de lá. Já a segunda mãe, manteve distância do fundo do poço, não desceu de sua posição para juntar-se ao filho, sofrendo com ele, mas do ponto mais alto onde estava, ela pôde lançar uma corda, e ajuda-lo a subir do “poço do sofrimento” onde ele estava preso.

Isso vale não apenas para pais e filhos, mas para qualquer relação humana. Quando nos envolvemos nos problemas do outro, e nos deixamos contaminar, sofrendo com a pessoa e por causa da pessoa, ficaremos mal. Antes era apenas uma pessoa no fundo do poço, mas depois viraram duas. A melhor atitude é permanecer onde estamos, em nosso lugar, e sem descer ao fundo do poço com a pessoa, e ajuda-la a sair de lá. Quem se mantém onde está e não vai ao fundo do poço com a pessoa, tem melhores condições de prestar ajuda, se de fato a pessoa quiser ser ajudada.

Seja empático com o outro, compreenda a visão dele dentro do contexto em que vive, mas não sofra junto com ele.

Hugo Lapa

A Tentação do Repouso

Num campo de lavoura, grande quantidade de vermes desejava destruir um velho arado de madeira, muito trabalhador, que lhes perturbava os planos e, em razão disso, certa ocasião se reuniram ao redor dele e começaram a dizer:
– Por que não cuidas de ti? Estás doente e cansado…
– Afinal, todos nós precisamos de algum repouso…
– Liberta-te do jugo terrível do lavrador!
– Pobre máquina! A quantos martírios te submetes!…
O arado escutou… escutou… e acabou acreditando.
Ele, que era tão corajoso, que nem sentia o mais leve incômodo nas mais duras obrigações, começou a queixar-se do frio da chuva, do calor do Sol, da aspereza das pedras e da umidade do chão.
Tanto clamou e chorou, implorando descanso, que o antigo companheiro concedeu-lhe alguns dias de folga, a um canto do milharal.
Quando os vermes o viram parado, aproximaram-se em massa, atacando-o sem compaixão.
Em poucos dias, apodreceram-no, crivando-o de manchas, de feridas e de buracos.
O arado gemia e suspirava pelo socorro do lavrador, sonhando com o regresso às tarefas alegres e iluminadas do campo …
Mas, era tarde.
Quando o prestimoso amigo voltou para utilizá-lo, era simplesmente um traste inútil.
A história do arado é um aviso para nós todos.
A tentação do repouso é das mais perigosas, porque, depois da ignorância, a preguiça é a fonte escura de todos os males.
Jamais olvidemos que o trabalho é o dom divino que Deus nos confiou para a defesa de nossa alegria e para a conservação de nossa própria saúde.

Meimei  – Chico Xavier